NEGRO ROM

NEGRO ROM
INICIATIVA QUE RECONHECE A DIFERENÇA
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Quem Tem Medo da Literatura Contemporânea? (Um Texto Direcionado para Os(As) Futuros(as) Escritores(as) Sem Medo)

(A.Lessa)

O poder na primeira pessoa
Poder em última instância
A mão alcançando o chapéu,
Acima de qualquer circunstância
Poder, poder, poder,
poder até não mais poder.

(O Poder - Marcelo Nova)


Ser humano gosta de poder.
Ser humano é gostar de poder, e do poder.
Ser humano gosta mesmo é do poder.
O universo literário, tão cheio de liberdade, está embriagado do medo da perda. Não é incomum a discussão sobre direitos autorais, sobre os creative commons da vida... Sobre de quem é o poder acerca da criação. O escritor, por mais humilde que finja, tem mania de Deus. Tende a ser o dono de seu universo criativo, da obra de arte – não mexa! Pode quebrar...

O escritor sabe que suas idéias são frutos de suas relações, mas prefere deixar subentendido. Sabe que o livro não vai sumir com o advento da tecnologia, no máximo ocorrerá mudanças no formato - mas mantenha o alarme ligado!
Tão hábil na criação do novo, mas quando falam de cyberliteratura... retrocesso.

E o leitor, o que pensa?
Ora, o leitor é ser humano.

Invoco Charles Dodgson para responder esse problema de lógica:

- Ser humano gosta do poder.
- Escritor gosta do poder.
- Leitor é ser humano.

Será que... leitor = escritor?!

Se sim, de quem é a criação? Quem tem a força, He-man?

Não tenho plena certeza, mas acho que o leitor aprendeu a gostar de interagir com o Big Brother (o da Globo mesmo. Quem dera fosse o de George Orwell...). Gostou de jogar. Talvez queira interagir de forma mais lúdica com a obra literária, não sei... Acontece que essa indefinição nos papéis está causando um rebuliço no mundo literário. E, onde há muita liberdade, há quem se sinta desprestigiado, ou seria desapoderado? Eu diria mais: amedrontado.

Em tempo:

- Charles Dodgson era matemático.
- Charles Dodgson adorava lecionar Lógica.
- Lewis Carrol escreveu Alice no País das Maravilhas.
- Lewis Carrol adorava Fotografia.
- Charles Dodgson é Lewis Carrol.

Será que... matemático = professor = escritor = fotógrafo?

Afeito às novidades, eu quero é mais. Até brincar com meus sofismas... Ou seriam silogismos disfarçados?

P.S: Sou escritor, ser humano, e gosto de poder... poder ser livre.

domingo, 22 de agosto de 2010

Gorillus morbiddus

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças
Livros, sim...

Caetano Veloso - Proibido Proibir


Após uma semana de divulgação do livro Negro Rom fui flagrado desejando, ignobilmente, sofrimento, dor e sangue. Calma. Era um desejo situado, unicamente, no plano voyeurista. Nada de materializações.

Curiosamente esse afã, mesmo nos cidadãos mais pacatos, se manifesta com relevante freqüência. Quem nunca desejou quebrar o que (ou quem) estava pela frente? É um resquício de nossa descendência símia, não há que se envergonhar, acho...

O final de semana chegou e, acompanhado dele, o espírito simiesco desejoso de poder. No meu caso o poder era irrelevante, só queria mesmo alimentar uma espécie de sadismo irreverente, que se fazia tão presente quanto imponente.

Começou no sábado com Abel Ferrara e seu primeiro filme independente, o despretensioso (e de baixíssimo custo) “Assassino da Furadeira” (1980). Quem conhece Ferrara sabe o que esperar. É agora, pensei. Um filme que fala sobre a linha tênue que nos separa da insanidade. Fui agraciado com banhos de sangue, e uma violência aparentemente sem propósito, mas não: eu entendia aquela violência, aquela raiva, aquela furadeira elétrica destruindo miolos, espalhando catchup como manda a receita dos mais consagrados filmes B. Beleza.

Confesso que deu uma relaxada, mas meu primata interior queria mais. A noite chega, e o domingo também. Descobri passando na TV o filme “Sexta-feira 13” (2009), o novo que não é remake. “Vamos lá macaquito, você tem a força”.

Sou fã do Jason, mas esse filme me fez dormir... Logo no início uma mulher siliconada, doida pra dar, mostrou os seios, mas nem isso foi legal... Mais fraco que o Sexytime, do Multishow, pelo amor de deus. Mortes bobas, com cheiro de coisa sintética.

A produção mais rica toma o lugar da independente. A independente, geralmente, é discriminada por ser... independente! E o macaquito, como fica? E o macaco, caralho?!

Ferrara, diferente, inteligente, pouco conhecido e com baixo orçamento conseguiu alimentar o Neanderthal que há em mim. Já o Jason atual, de Michael Bay, só o adormeceu. De uma certa maneira isso foi esclarecedor: se até um macaco consegue reconhecer qualidades na diferença, para um ser humano isso também não deve ser difícil.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Racismo à Brasileira

(José Carlos Peu)

Recentemente tenho escrito crônicas sobre o racismo partindo, porém, de minha própria vivência. Alguns amigos teceram comentários sobre meus escritos, alguns elogiosos, outros nem tanto. Nesta crônica, me proponho a aprofundar mais este mesmo tema, e ao mesmo tempo responder alguns comentários que recebi. As respostas estarão espalhadas por todo o texto.

Florestan Fernandes disse, numa frase lapidar, que a sociedade brasileira desenvolveu o preconceito de ter preconceito. Pesquisas recentes comprovam isso ao mostrarem que 89% dos brasileiros concordam que o Brasil é um país racista, mas, menos de 10% das mesmas pessoas que reconhecem este fato se auto-declararam racistas. A pergunta que os pesquisadores estão até agora se esforçando para encontrarem a resposta é: Como pode um país ser racista sem a existência de cidadãos racistas?

Na realidade, o preconceito existe, e é facilmente observável se atentarmos às seguintes questões: Se o número de negros e pardos é de 49% da população brasileira, por qual motivo o percentual de jovens negros e pardos no ensino superior é de apenas 2%? Se a Bahia é o estado com o maior número de negros no Brasil, por qual motivo as maiores cantoras do principal ritmo musical baiano, o axé, são brancas? Se o número de jogadores de futebol negros é tão elevado no Brasil, por qual motivo o número de técnicos de futebol negros é tão diminuto?
Qual a explicação para o fato de termos tão poucos apresentadores (as) de programas de televisão negros num país onde, repito, 49% da população são negros e pardos? Qual a explicação para o fato de que 99,9% dos comerciais de automóveis serem protagonizados por pessoas brancas? Paremos por aqui, posto que mais detalhamentos desta vergonhosa situação é extremamente cansativa tanto para mim, quanto para quem vier a ler esta crônica.

Antes de responder a qualquer dessas questões, meditemos em outra, por qual motivo um número enorme de pessoas continuam dizendo que não existe preconceito no Brasil? Dentre tais pessoas, até mesmo vários negros e pardos procuram defender a tese de que não existe racismo no Brasil. Um sociólogo francês, chamado Pierre Bourdieu, morto no ano de 2002, pode nos ajudar a entender um pouco por que se dá tal fato. Entre as muitas de suas contribuições encontramos um conceito bastante trabalhado por Bourdieu, o conceito
de violência simbólica. De que se trata? De forma resumida, a violência simbólica é um tipo de violência onde a vítima não consegue perceber que sofreu um ataque a sua dignidade. É
uma imposição dissimulada de um capital cultural imposto como superior a todos os outros capitais culturais, que nem mesmo conseguem perceber a dominação sofrida. É importante entendermos que este processo tem de ser dissimulado sempre, caso contrário a violência não será simbólica, sendo, também muito mais fácil de ser combatida. Da mesma forma, a vítima da violência não pode perceber este processo.

O preconceito no Brasil é assim, dissimulado, onde a maioria das pessoas que o sofrem não conseguem perceber, e onde um capital cultural de uma elite branca é imposto sobre todos os outros capitais culturais. Apenas muito recentemente na sociedade brasileira a questão do
preconceito se tornou parte dos principais debates na sociedade. Isto é bom, posto que se uma pessoa que sofre com fortes dores de cabeça, ou de depressão profunda, não se reconhecer como alguém que padece de um sério problema e que precisa de algum tipo de tratamento, dificilmente se verá livre de sua doença, ou pior que isso, poderá sentir na pele o agravamento de sua situação.

Se temos algum tipo de preconceito, o melhor que temos a fazer é enfrentar isso por meio de mais informação sobre a nossa situação. Não adianta nada ter preconceito de ter preconceito. Geralmente este remédio simples, mais informação de fonte confiável, consegue combater os principais sintomas desta doença.

José Carlos Peu. 08/2010.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ficção Científica

(José Carlos Peu)

Até meados da década de 1990, ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’, ‘Blade Runner’, ‘Star Wars’, eram considerados ‘clássicos’, o que melhor se fez no cinema de ficção científica. Com um ou outro título sendo acrescentado ou retirado desta lista dos melhores, exemplo de ‘E.T. O Extraterrestre’, ‘Laranja Mecânica’, ‘Contatos Imediatos do 3º Grau’, ‘O Dia em Que a Terra Parou’, ‘O Planeta dos Macacos”, etc, tudo já estava definido. Parecia que tudo era um fato consumado e que nada de importante surgiria. Porém, esqueceram de avisar isso a Andy e Larry Wachowski, e eles lançaram em 1999 ‘Matrix’, filme que tornou-se a ‘pedra de toque’ de todos os outros filmes de ficção científica por um bom tempo.

A importância de uma obra de arte não pode encerrar-se em si mesma. Tal importância reside, em minha opinião, muito mais na capacidade de influenciar outras obras de arte em seu ramo e, até mesmo, influenciar obras em outras mídias. Neste quesito, é fácil entendermos a importância do filme ‘Matrix’ para a cultura, seja ela pop ou não. Este filme influenciou o cinema, posto que a maioria dos filmes posteriores se parecem um pouco com ele. Mas influenciou também quadrinhos, séries de TV, literatura, e até universidades. Não falo apenas dos cursos de filosofia, lembro-me bem de uma aula de antropologia da educação onde o professor discutiu ‘Matrix’ com a turma ao explicar o conceito de realidade pouco antes de indicar um texto do antropólogo Gilberto Velho.

Se tais coisas não são o bastante para atestar que ‘Matrix’ é um dos maiores filmes de ficção cientifica de todos os tempos, o melhor desde ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’, e um grande abre-alas para o século XXl, eu não sei mais o que poderia ser o bastante. Darren Aronofsky deu, um pouco antes de lançar ‘The Fontaine’, uma entrevista que dizia que no momento em que assistiu ‘Matrix’ ficou muito triste, pois pensava em filmar uma grande história de ficção
científica, mas, depois de ‘Matrix’, nada mais fazia sentido. Por muitos anos ele tentou escrever um grande roteiro de ficção, até que escreveu ‘The Fontaine’, que segundo ele era o mais espetacular filme de ficção cientifica desde ‘Matrix’. Apesar da brilhante atuação de Hugh Jackman como protagonista da história, quem se lembra do filme ‘The Fontaine’? Eu dou uma ajudinha, o título no Brasil foi ‘A Fonte da Vida’. Alguém se lembra?

O ‘efeito Avatar’ ainda não é plenamente conhecido, mas, ‘Avatar’ não foi o grande filme que todos esperavam que fosse. Mesmo que represente um grande avanço tecnológico, este filme não foi realmente um grande representante na galeria dos filmes de ficção científica. Um filme muito mais barato/simples que ‘Avatar’, e que apresentou um grau de originalidade muito superior foi ‘Distrito 9’. Idéia extremamente original, e com um viés social muito acima da média da maioria dos filmes de ficção cientifica recentes. Novamente digo, em minha opinião, ‘Distrito 9’, de Neill Blomkamp, é o melhor filme de ficção científica desde ‘Matrix’. Uma das grandes qualidades de ‘Distrito 9’ era a mistura de ficção e documentário. Esta técnica, quando bem utilizada, produz um efeito de potencializar a sensação de realidade
nos espectadores do filme. Um filme espetacular que utiliza muito bem esta mesma técnica é o curta ‘Recife Frio’, de Kleber Mendonça Filho, que trata de uma inexplicável mudança climática que faz cair neve em pleno Pernambuco. Este filme é altamente recomendável.

Hoje sabemos que a história é cíclica, e que recomeça a cada instante. Não há motivos para nos fecharmos na velha concepção do que era ‘clássico’, e do que era ‘descartável’. O novo está sendo criado, agora, neste momento, que venham novas histórias!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Linguagem e Exclusão


“Tem alguma coisa estranha no jeito como você pronuncia as palavras. Você é nordestino?” – Essa pergunta me foi feita por uma amiga num estágio. A minha esposa, também, costuma rir de algumas pronúncias que ela diz serem muito arrastadas. É somente natural que eu carregue o sotaque nordestino na maneira de pronunciar algumas palavras.

A minha família é natural do município de São Lourenço da Mata, em Pernambuco, e veio para o Rio de Janeiro quando eu tinha apenas dois anos de idade. Criado por pais nordestinos e rodeado por tios, tias e sobrinhos com o jeito nordestino de falar, era inevitável que em
algumas palavras as minhas origens se fizessem mais presentes do que em outras.

Notamos que os grandes grupos culturais, mesmo dentro de um mesmo país, diferenciam-se e isolam-se em suas relações. Os signos lingüísticos de maneira geral refletem as diferenças e desmascaram domínios de códigos dispares. “Apesar de pertencermos a uma mesma ‘comunidade semiótica’, há uma diversidade de domínios lingüísticos devido à diversidade das várias regiões que compõem o território brasileiro, onde predominam linguajares com suas características próprias.” (FERREIRA, 1999)

Tratando especificamente da linguagem oral, é inevitável não percebermos a linguagem como porta-voz da exclusão. As pessoas que vão das zonas rurais para os grandes centros urbanos
são geralmente encarados como miseráveis, despreparados, sem cultura, muitos chegam a dizer que tais pessoas ‘nem sabem falar’. É como se a forma como tais pessoas falam não possui valor algum já que não falam como ‘nós’. Deste ponto até a generalização é apenas um passo. Qualquer pessoa que não fale como os citadinos das grandes cidades do Sudeste, o padrão lingüístico para o restante do Brasil, são logo acomodados em grandes grupos tais como ‘paraíbas’, ‘baianos’, ‘mineiros’, etc. Notamos, também, que os sotaques das regiões mais ao
sul são apenas exóticos, enquanto os sotaques das pessoas do Norte e Nordeste são tratados não apenas como exóticos, sendo bastante estigmatizado.

A linguagem, cada vez mais, tende a excluir pessoas que estão fora dos seus grupos culturais de origem e não dominam os códigos lingüísticos do grupo cultural que visam integrar-se, o grupo dominante. Mas, a linguagem, deveria servir para a união dos homens e não para a exclusão. Este é o desafio que, mais do que nunca, se nos apresenta.

Bibliografia:

Ferreira, A. P. O Migrante na rede do outro. Ensaios sobre alteridade e subjetividade. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Editora TeCorá, 1999.

José Carlos Peu, 19 de Julho de 2010. 22:11 h.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Banquete dos Mendigos


(A. C. Andano)

Oh, antíteses! Que trazeis hoje?

Um banquete de mendigos?

Um molusco bonachão?

Um cidadão solidário?

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!

Traga-me tudo! Estou faminto...

Não há nada melhor que retornar sabendo que é definitivo...
Então, sem temor, relacionemos os três objetos acima. Sim, eles têm muito em comum!

O Banquete dos Mendigos...
Sempre pensei que fosse mentira da oposição, mas há mendigos que fazem sopa de jornal com pedras... Que bizarro! Nunca vi um mendigo saboreando uma dessas, mas um colega me garantiu que é verdade!
Enquanto isso o que temos “dando sopa”? Nosso Molusco Bonachão, claro!! Ele não só fala, como dirige um país! É um primor, e especialmente competente com as palavras! Recentemente defendeu de forma ímpar seu povo contra uma grande entidade desportiva, ele gritou em plenos pulmões (sic, o meu molusco tem pulmão): “Acham que somos um bando de idiotas”.
Não, não acham... Eles têm certeza... E talvez, trocando pelo silêncio, até queiram dividir os lucros do superfaturamento com as obras emergenciais para 2014. Ah, obras que serão pagas pelo ilustre cidadão solidário! Obrigado, cidadão!

Poucos conhecem, mas Banquete dos Mendigos, também foi nome dado a um projeto dirigido por Jards Macalé (o Jards de novo, mas ele merece toda a atenção). O banquete tratava-se de um show comemorando os 25 anos da Declaração dos Direitos Humanos... em plena ditadura militar! Cantores renomados, como Paulinho da Viola e Milton Nascimento, participaram do evento que intercalava músicas e leitura de artigos da declaração.
Naquela época, somente militares podiam ser presidente. Não era permitido imaginar um molusco no poder, quem dirá bonachão! E o cidadão não só era solidário, como subjugado.

Jards foi preso diversas vezes, porque, afinal de contas, lugar de banquete não é no estômago de mendigos.

E então, antíteses? Seria o mundo de hoje melhor que o de ontem?

Hoje podemos escolher o tipo de animal que queremos para presidente. Difícil é distinguir qual deles é humano.

Hoje o cidadão solidário tenta o Habeas Corpus de um total desconhecido. Difícil é usar essa motivação pra algo que preste.

Hoje podemos escolher entre um Banquete dos Mendigos, e uma sopa de jornal com pedras... difícil é não perder o apetite antes...

* A imagem acima é a capa do vinil "Banquete dos Mendigos, (1973)", encontra-se originalmente no endereço da web: http://300discos.files.wordpress.com/2009/08/cc26-jards-macale-o-banquete-dos-mendigos.jpg?w=295&h=300

sábado, 10 de julho de 2010

Racismo em Debate

(Peu)

Temo parecer repetitivo ao escrever nova crônica sobre o mesmo tema,
apenas uma semana após “Sobre como me tornei racista”. Porém, não sou eu que me repito, são os acontecimentos que se repetem, e se não pararmos um pouco para refletirmos sobre eles, parecerão mais um dos absurdos normais do dia-a-dia. Não podemos nos calar.

Sábado passado (03/07/2010), eu estava a conversar banalidades com meu cunhado, J., irmão de minha esposa, quando fomos interrompidos pelo seu filho, L., que tinha algo muito importante para nos dizer. Paramos para ouvi-lo, mas o que ouvimos não eram palavras de um
adolescente negro de 13 anos de idade. Eram palavras de outras pessoas, que por algum motivo, acabaram caindo na boca do L. O que ele nos disse era “apenas uma piada”, na sua concepção, “não precisava ser levado á sério.”

“Um garoto da escola me disse que a mãe dele tinha lhe dado á luz, mas que a mãe do fulano, um garoto lá da sala, tinha dado um curto-circuito.”

O L. não conseguia parar de rir enquanto nos contava
a ‘piada’. Pouco tempo antes, em um dos vários estágios que realizei para concluir o curso de Pedagogia, escutei um menino ‘moreninho’ contando para um grupo de amigos uma piada que dizia que um rapaz havia se machucado e foi a uma farmácia comprar um esparadrapo da cor da pele. O farmacêutico pediu-lhe desculpas, mas, por aquele estabelecimento não ser uma loja de materiais de construção, não vendia ‘fita isolante’.

A Lei 10.639/03, e mais recentemente a Lei 11.465/08, versa sobre a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura da África no currículo dos estabelecimentos de ensino públicos ou particulares. Penso que as escolas só vão se esforçar para cumprirem esta lei quando estes conteúdos forem requisito para as provas do vestibular.

Mas, voltando ao L., o que a escola está ensinando aos nossos jovens eu não sei, mas tive que dizer ao L. que esta piada era racista.

“Eu
sei!” - disse L. sem parar de rir. Neste momento o seu pai falou: “Você é preto (se referindo a mim), eu sou preto, ele é preto, vem contar uma piada dessas e quando alguém fala que é racista ele diz que sabe, mas continua rindo...” L. se afastou de nós com um sorriso um pouco forçado, provavelmente não esperava que sua piada resultasse num ‘sermão’.

O fato de que o L. deve me considerar apenas um ‘moreninho’ fez com que pensasse que eu iria gostar da sua piada. Eu pensei em não falar nada, em deixar que seu pai falasse. Mas, penso que se eu calasse, J. talvez calasse também. Mesmo que ele não desse atenção e não sorrisse, como de fato não sorriu, se ele calasse deixaria de passar uma lição para seu filho, um valor.

Questões raciais são mesmo algo espinhoso. Na verdade, tanto a escola como praticamente todas as outras instituições da sociedade, não estão ensinado nada, estão calando-se no que tange a questões raciais, de modo que quem se pronuncia fica parecendo apenas um chato, um
panfletário, um radical, um fanático. É claro que sempre há exceções. Existem muitas brechas e aberturas que possuem a possibilidade de se tornarem portas abertas para o debate, mas é necessário que não nos calemos. Toda a sociedade, brancos, ‘moreninhos’ e nós negros, devemos aproveitar para nos inserirmos neste debate, que visa a criação de uma sociedade mais igualitária. Neste ponto, aproveito para lembrar que a Lei 11.465/08 inclui, também, o estudo da história e da cultura indígena na formação do Brasil como tema obrigatório no currículo escolar.

Mais uma vez, não nos calemos!


José Carlos de Alcantara, 08 de julho de 2010, 08:30 da manhã.

sábado, 3 de julho de 2010

Sobre Como Me Descobri Racista

(Peu)

Na última sexta-feira, amanhã fará exatamente uma semana, me descobri racista. Digo me descobri, mas deveria dizer que me desmascararam. Eu e minha esposa fomos numa cerimônia de casamento. Ela estava "um pouco" a trabalho, visto que é cabeleireira; estava preparada para imprevistos, principalmente com a dama de honra. A dama, uma menina de
9 anos, que durante a cerimônia ficou do lado de fora num carro esperando a hora de entrar com as alianças.

Eu fotografava a menina, enquanto um de nossos amigos, brincando, pegou as alianças da menina e pediu para que eu o fotografasse. Sua esposa falou de forma ríspida censurando-o: “W. você já é preto, não precisa ficar dando escândalo para aparecer.” Tive que me intrometer, disse-lhe: “Falando desse jeito você me ofende!” Eu, sinceramente, não estava preparado para a declaração seguinte: “Que isso Zé Carlos, deixa de ser racista. O W. é muito mais preto que você! Você é marrom bombom. Dizer que você é preto é racismo. Você tem de se aceitar como moreninho!”

Para mim este discurso foi algo novo. Eu me descobri racista, pois não me aceitava como uma pessoa morena, reivindicando minha negritude. Resolvi que não valia a pena correr o risco de estragar a cerimônia religiosa, explicando e me autodeclarando negro.

No fim de semana, não lembro exatamente se foi no sábado ou no domingo, no intervalo de algum jogo da copa do mundo de futebol transmitido pela Rede Bandeirantes, assisti uma propaganda dos postos Forza, onde um homem de fenótipo negro dizia ser muito importante que as pessoas escolham o melhor para si. Ele explica que sempre escolhe os melhores materiais para o seu negócio, para seu escritório. Até este momento, a cena se concentra apenas no rosto do homem. Depois que ele começa a concentrar sua fala no escritório, a cena abre para que possamos ve-lo. A imagem que surge é a de um táxi sendo abastecido no posto Forza.

O que me chamou a atenção neste comercial foi que passava a idéia de que o personagem vivido pelo homem negro era uma pessoa bem sucedida, tanto que possuía seu próprio escritório, seu próprio negócio.

Infelizmente, o anuncio meio que delimita as possibilidades de um homem negro, indicando que seu lugar social, de negro bem sucedido, é o volante de um táxi. Mais uma vez me veio à cabeça a declaração da esposa do meu amigo W. que resolveu me contar que sou
racista.

Nesta terça-feira (29/06/2010), atendi na biblioteca da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, onde realizo estágio de Pedagogia, um homem que solicitou um roteiro do Cacá Diegues para tirar algumas Xerox. Pedi que deixasse um documento seu, como de praxe, mas quando ele retornou conversamos bastante sobre cinema. Ele me mostrou fotos do seu celular dos bastidores das filmagens do filme ‘Os Mercenários’, do Sylvester Stallone. No meio da conversa, ele comentou sobre um ator negro de um seriado policial que se passa em São Paulo, e que ele conheceu recentemente. Ele disse que o cara era mais negro que eu. Eu não era negro, era apenas mulato. Apenas mulato. Isso é frustrante. A única coisa que me deu um pouco mais de alento nesta conversa foi que ele disse, também, que Barack Obama não era negro. Ambos, eu e o Obama, éramos moreninhos.

Numa única semana, três ocasiões distintas onde minha identidade negra foi questionada, ou ultrajada, com uma limitação de possibilidade profissional. Foi uma surpresa que a rede Forza não tenha apresentado um negro bem sucedido na sua carreira profissional como um frentista.
Enfim, eu era racista. Eu e o Obama éramos apenas moreninhos, e o mundo, o mundo é perfeito.

*Crônica escrita no dia 01/07/2010, 01:55 da manhã.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Moebius, Linguagem e Exclusão: Uma Crônica para Educadores e Futuros Professores


“Ele simplesmente fez com que o projetor de partículas cromáticas de dupla polarização entrasse em ressonância com a válvula de introspecção, o que destruiu a caixa a cabo... e provocou (...) a criação de um campo antitempo cujo epicentro estava ligado ao circuito cronótico de meu laboratório de pesquisas das cronopartículas...” (Moebius. “Le Garage Hermétique”. 1992.).

O que dizer de um texto como este? Primeiramente, uma explicação: trata-se da conclusão da história em quadrinhos “A Garagem Hermética”, de Moebius. Será que uma obra como esta é acessível a todo tipo de leitor? Será um desacato à ignorância das massas? Ou, quem sabe, só mais uma obra de qualidade artística duvidosa, fruto de algum peiote, cogumelo, ou droga (?) do gênero?
O que nos importa é a linguagem.

As últimas postagens desse blog prepararam, propositalmente, o terreno para essa crônica. Uma crônica para educadores e futuros professores.

Decerto, o texto acima não pode ser compreendido por qualquer pessoa e o autor nem esperava por isto. Moebius escreveu para o SEU público-alvo. “Então ocorreu uma exclusão premeditada através da linguagem, pois se sabia que uma gama de pessoas não compreenderia o conteúdo de seu trabalho”. Não vou me ater a discursos coléricos imbuídos de um pseudopaternalismo, prender-me-ei ao discurso dos que buscam soluções com os recursos que possui, no caso, minhas posses se resumem a idéias.

Futuros pedagogos devem pensar: “O que é preciso fazer para não ser um “Moebius” em sala de aula?” A resposta é simples: “Valer-me de um texto compreensível para o meu público-alvo(alunos).”

Em um primeiro momento, dou a impressão de que incentivo a ignorância das massas, mencionada no inicio do texto, mas minha proposta está longe disto. Utilizar uma linguagem acessível aos alunos significa cativá-los. “Você é eternamente responsável por quem cativas” (SAINT EXUPÈRY, Antoine de. “O Pequeno Príncipe”. 1943[original]). Uma boa relação com o alunado proporcionará futuras inserções mais “herméticas” na relação professor-aluno, seja no diálogo puro e simples, seja na execução de trabalhos conteudistas. O professor não deve ser pai, mas deve auxiliar a preparação do aluno para um mundo onde dominar a intrincada rede de formalidades é primordial.

Moebius não era um gênio, mas dominava esta rede. “Com a Garagem Hermética, tudo aconteceu deste jeito. Desenhei as duas primeiras páginas com a intenção de fazer uma piada (...) que (...) não levaria a lugar nenhum. (...) Jean-Pierre Dionnet me chamou e cobrou o final da história e eu, é claro, tinha me esquecido completamente (o que era o final). (...) em estado de pânico, fiz mais duas páginas para ganhar tempo. (...) a história termina numa seqüência que introduz um fator de incoerência potencialmente ilimitado”.(Moebius. “Os mundos fantásticos de Moebius”. 1992. Globo. RJ).

Ressalto: Moebius escreveu esta obra durante quatro anos em formato de folhetins mensais, sempre publicando algumas páginas vivendo sob a pressão do editor para dar um final à história. Um final que ele nunca inventou.

A obra foi concluída com ares de art-nouveau, algo inesperado inicialmente. E mesmo após a revelação acima (que surgiu anos depois), Moebius ainda manteve a pompa de artista-gênio.
Não quero adentrar na reflexão sobre “o que é arte?”, nem sobre a genialidade de Moebius (na minha opinião um artista fenomenal). Porém é fato consumado: o sucesso pode depender do domínio desta linguagem hermética.

Djavan é um exemplo do trabalho que um educador deve fazer. Através de melodias impactantes, apresenta poesias belíssimas, o que lhe garante respeito e reconhecimento. É provável que músicas como “Açaí” possam ter o “Selo Moebius de Qualidade”, mas assim se vive na sociedade dominante. A linguagem quer excluir.

Não quero mobilizar o futuro professorado numa busca por “David Linch”s com seus “Twin Peaks”, tampouco crianças refletindo com um vocabulário “djavânico”. Desejo que esta reflexão sirva como um ponto de vista a ser discutido juntamente com outras que surgirão. E quem sabe, num devaneio utópico, a linguagem e a exclusão deixem de possuir uma relação tão estreita. Finalizando aos professores de amanhã:

Não precisamos nos tornar um “Moebius” na vida, ou em sala de aula; mas é digno almejar que nossos alunos, ou filhos, um dia o sejam. Hipocrisia, não.

* Desculpe-nos a ausência mais uma vez por problemas técnicos.
** Em breve um novo conto de Peu.
*** Em tempo: A Mórbida Investigação e o Edifício Brasil não foram esquecidas... As interrupções do blog por problemas técnicos afetaram a publicação de ambas.
**** Abraços fraternos da Secretistas. Estamos de volta!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma Viagem em Busca do Novo


Como surgem as boas idéias? Eis uma pergunta da qual todo escritor gostaria de ter a resposta. Não só a resposta, mas porque não, um esquema simples, uma receita onde se mistura tudo, coloca no forno e... Pronto! Mais uma idéia quentinha, inédita, pronta para ser saboreada.

Uma pena. Nunca existirá uma receita assim. Certamente as boas idéias existem em algum lugar, em alguma realidade distante, e repentinamente somos surpreendidos. Alguns dizem que a hora do banho é sagrada. O banheiro, em geral, é considerado um excelente reduto para as boas idéias. Num momento de ócio somos surpreendidos com pensamentos, visões, sonhos e subitamente percebemos: “Isso pode dar uma história interessante. Vou escrever isso”. E se não escrever... Pode ter certeza, em instantes esquecerá e terá perdido uma dádiva oriunda de um mundo ainda pouco conhecido.
Certa vez percebi que a busca pelo ineditismo é traiçoeira. Pode fazer de um escritor promissor, uma promessa de mediocridade. Lembro-me bem, quando era um leitor compulsivo de revistas em quadrinhos, de uma reunião objetivando a criação de uma história totalmente nova, do tipo “você nunca viu nada parecido antes” (esse era o nosso lema, dito e repetido incontáveis vezes).
A equipe: eu e um amigo desenhista. Ambos escreveriam a história, ele desenharia. Eis um resumo do diálogo:

- Temos que escrever algo novo. Nunca visto antes. Nunca lido antes.
- É verdade. Não podemos abdicar disso.
- Então vamos lá... Esse negócio de super-herói... Temos que tomar cuidado. Você vê... É tudo igual.
- É... Tudo com aqueles uniformes extravagantes...
- Você vai querer escrever sobre super-herói?
- Não sei... Eu estava pensando em escrever algo totalmente novo...
- Eu também...
- E super-herói... Todo mundo escreve sobre super-herói!
- É verdade, o próprio conceito de super-herói... É algo já desgastado, batido.
- Então chegamos num consenso... Nada de super-heróis.
- A gente vai falar sobre o quê... Vejamos...
- Podemos falar sobre pessoas... Não sei...
- Pessoas? Falar sobre pessoas é algo que todo mundo faz... Você quer dizer algo tipo Seinfeld, né?!
- Confesso que sim...
- Tá vendo. É fogo, é difícil mesmo escrever algo novo...
- É... É difícil... Tem que ser algo diferente.
- É... Algo que ninguém nunca viu antes!
- Pessoas a gente vê toda hora... O próprio conceito de pessoas...
- Engraçado... Eu tava pensando nisso agora!
Ambos riram.
- Não podemos escrever sobre pessoas...
- Nem sobre alienígenas!
- É... Alienígenas são criações de pessoas...
- Podem existir...
- Mesmo se não existem concretamente, no imaginário das pessoas...
- É difícil...
- Eu falei que ia ser fogo...
- As formas humanóides não servem... Lembram seres humanos. Lembram a vida terrena... Um tema desgastado! A vida em planetas é um tema desgastado em si...
- Eu pensei nisso... Mesmo se criássemos vida em outro planeta... É tolo!
- Não pode ser planeta... Nem vida... Acho que o caminho é criarmos outros seres, com outros sentidos... Outra forma.
- Criar um sentido... Vejamos...
- Porque se criarmos um ser que tem visão, é meio humano, animal.
- Criar sentidos é algo meio além da minha imaginação... Minha mente não alcança...
- Aí, essa agora... Senti que esse é o caminho! Levar a mente ao inalcançável!

Enfim... O assunto durou muito tempo. Chegamos num ser que era apenas essência. Não tinha forma, e os sentidos criaríamos depois. Não poderia ser uma luz, porque luz existia. Não podia nem ser um ser, porque o conceito de ser... Já imaginaram o que vem a seguir.
Percebemos que tínhamos criado o nada, o vazio. E minutos depois nos demos conta de que o nada também existia! A única coisa que criamos ali, após uma hora de elucubrações inúteis, foi nossa própria incompetência criativa!

Nós éramos ali a promessa de mediocridade que sequer tinha ido para o papel.

Alexandre Lessa.