NEGRO ROM

NEGRO ROM
INICIATIVA QUE RECONHECE A DIFERENÇA

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Dia Que Carla Camuratti Achou um Sorriso - 5ª Parte

A rua era estreita e terminava num beco sem saída para carros a pouco mais de trinta metros após a entrada do Anatole France. Eram quatro ou cinco carros, contando com os carros dos legistas, que fechavam a rua não permitindo que outros carros tivessem acesso ao final dela. Nos telhados de alguns casebres ao redor do colégio, várias outras aves de rapina apontavam seus fuzis e metralhadoras para os policiais que esperavam nos carros. Quatro policiais entraram no colégio junto com os bombeiros, enquanto dois ficaram do lado de fora, um em cada carro.

Sentiam medo e encolhiam-se por estarem acuados dentro de veículos frágeis, que não apresentavam nem sequer uma sombra de proteção contra todos aqueles armamentos à sua volta. Ademais, os policiais sabiam que estavam em uma emboscada. Simplesmente não podiam acreditar como seis homens experientes, acostumados a subir morros, foram cair nessa
furada de entrar numa favela para acompanhar bombeiros e legistas. Na verdade, não entendiam nem mesmo por qual motivo se precisava de legista num crime como esse.

Sentiam-se como o rato na fábula de Kafka que corria desesperado para uma ratoeira no fim de uma sala onde duas paredes se encontravam e, no ponto privilegiado da armadilha, cantavam baixinho e tamborilavam com os dedos na porta dos carros. Não admitiam um para o outro o medo que sentiam, mas, era tanto que nem sequer ousavam ficar conversando em pé
fora dos carros. Eram dois policiais cercados por bandidos por todos os lados. Todo palco estava preparado para uma grande tragédia, e seria uma tragédia não terminar assim o dia. Era inevitável que o gato kafkiano lhes desse a sugestão de mudar de lado, para que eles
fugissem da ratoeira, só para devorá-los.

Havia pouco tempo que Carla estava estagiando no colégio Anatole
France. Os longos corredores do antigo prédio, recentemente reformado, mesmo que bem iluminados causavam-na sempre certa cisma. O medo ia embora na presença de outras pessoas que todos os dias eram quase uma multidão. Alunos, professores, merendeiras, faxineiros, inspetores,
etc... Neste dia específico, não havia alunos nos corredores. As aulas foram suspensas e muitos funcionários aproveitaram para não trabalhar e voltaram para suas casas. Os corredores estavam vazios, Carla caminhava temerosa contando seus passos como quem se apega à esperança de encontrar um tesouro, rumo ao gabinete da diretora. Queria perguntar se poderia ir embora, e se aquelas horas que deveria fazer naquele dia seriam descontadas. Caminhava vacilante quando da porta de uma das salas de aula saiu um homem vestido com um guarda-pó branco, onde se lia alguma coisa no bolso do lado esquerdo do peito, mas que
ela não conseguiu ler o que era. O homem vestia luvas de procedimentos médico-cirúrgicos e trazia na mão esquerda um saco transparente que continha em seu interior um dedo indicador sujo de sangue, mas já ressecado. O homem era da perícia e assustou-se, também, ao ver uma
jovem surgindo de forma inesperada em sua frente. Para aumentar o susto do homem, Carla gritou histérica como as mocinhas em filmes de terror quando estão prestes a morrer.

O grito de Carla ecoou por todos os corredores vazios, e seu eco entrou sem pedir licença poética em todas as salas de aula. No mesmo instante que ela virou-se para o lado oposto ao qual caminhava, visando correr para se afastar do legista, deparou-se com vários outros homens. Eram policiais e outros legistas, além do inspetor do colégio e da diretora, mas, a sua mente, perturbada com o susto que acabara de levar, via apenas vários outros homens vestidos com guarda-pó portando vários outros sacos contendo indicadores. Desmaiou.

Ao acordar, a primeira imagem vislumbrada foi o rosto rotundo da diretora bem perto do seu. Dizia de forma doce seu nome enquantopassava docemente as mãos em seus cabelos. Evocava calma, mesmo naquele instante tão delicado para uma demonstração de calma, ao pegar suas mãos e tentar lhe passar força. Com todo este carinho, foi lembrando pouco a pouco a causa do desmaio. Viu, novamente, como que num flash, os homens, todos saindo ao mesmo tempo das salas do imenso corredor, cada um com um saquinho com um indicador em seu interior. Suas pupilas se dilataram e ela olhou rapidamente para todos os lados. Estava muito assustada. Mas não havia homens nem dedos indicadores decepados naquele ambiente. Tais imagens
pavorosas davam lugar a armários-arquivos, paredes com quadros que reproduziam obras de Monet, alguns vasos com belos arranjos de flores, e o tom plácido em que foram pintadas as paredes. Agora, reinava novamente a paz.

Ficou a par de tudo o que acontecera, e envergonhou-se dos risos que acabou causando aos legistas e aos policiais. Tomou um copo de água com açúcar e começou a compreender que chacinas são coisas tão comuns quanto o ar que se respira, estando em todas as partes da cidade. Mas, nada disso era motivo para desmaios, nada disso é um fato social
significativo no subúrbio.

* Em Breve: O retorno de Animalia Sensual (por El Bailaor) e o início da saga Anti-Brasil na Copa 2010 (por Adriano C. Andano).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - 4ª Parte.

Nesta manhã Carla atravessou o pórtico de entrada da comunidade “A” e os sentinelas erguntaram-lhe o que eles haviam almoçado no dia anterior. Carla pensou um pouco e respondeu que um deles havia comido uma quentinha de ‘bife com fritas’ e o outro ‘frango com batatas’. Passou. Se acertou ou não a pergunta imbecil, não sabemos.

Carla andava pelas ruas principais da favela com o mesmo medo que sentia ao atravessar o caminho que ladeava o lixão. “Na comunidade também há urubus.” – Pensou ela ao ver que os biltres do tráfico tinham, quase todos, nariz adunco, pescoço esticado que projetava para
frente e não para o alto as suas cabeças e, o que ela considerava ser o pior, andavam todos com um andar característico que consistia em braços semi-abertos afastados do corpo, passada ritmada que provocava um movimento de sobe e desce da cabeça e, por fim, uma leve curvatura da coluna que os fazia parecer um pouco corcundas. Era, em suma, um bando de urubus.

Sozinha com o seu medo, ela andava olhando para frente ou para baixo, nunca olhava para os lados, pois evitava olhar para o interior das casas ou para os rostos das pessoas. As portas abertas das casas sempre desvelavam o que deveriam ocultar. Eram mulheres descabeladas
que passavam todo o dia cuidando das crianças e das demais tarefas da casa vestidas o dia inteiro com suas roupas de dormir. Homens sem camisa e com bermudas sempre caindo, em resultado de usarem números mais altos que os seus. Crianças sempre sujas que pareciam multiplicar de número a cada vez que desviava o olhar. E, o que era o pior de tudo, homens com bermuda caindo revelando seus pêlos pubianos junto com mulheres em roupas de dormir leves e transparentes. Realmente era melhor não olhar para dentro dos casebres.

Sentia-se sozinha, também, quando precisava desviar das motos. Muitas eram conduzidas por pais de família que ganhavam a vida levando as pessoas de um lado para o outro, mas, muitas outras eram conduzidas por olheiros, aviõezinhos e pelos garotos que eram chamados de vapor.

Nas calçadas, havia as tias que vendiam balas e doces, os tios que vendiam legumes e verduras e os garotos que faziam das ruas um mercado de negociação de drogas. Carla nunca quis acostumar-se em ver uma fila de vários fuzis encostados em fila nas paredes, como se fosse uma vitrine. Para ela, se num determinado dia acordasse e estivesse acostumada, acomodada com esta situação, o seu mundo teria acabado.

Desde que era uma garotinha bem pequena, quando sentia muito medo, cantava para espantar todos os males ao seu redor. Sempre quando passava no meio da comunidade sentia uma verdadeira necessidade de cantar. Queria cantar para esconder que estava com medo. Todos os dias sentia medo ao fazer este mesmo trajeto em direção da escola onde fazia seu estágio. Então, Carla deixou que soasse em sua cabeça uma das canções infantis que sempre cantava para as crianças em sala de aula. À medida que a letra da música dançava em sua cabeça, ouvia as vozes das crianças cantando. E, ao ouvir o som das vozes cantando a musiquinha infantil, o seu medo se dissipava, pois pensava não estar mais sozinha. É natural que assim fosse, posto que todos os medos que sentimos perduram apenas enquanto pensamos única e exclusivamente neles. Ela imaginava que qualquer pai ou mãe que precisava sair ainda de madrugada para trabalhar e tinha que deixar seus filhos sozinhos, deveria passar o dia inteiro cantando para espantar o medo que sentissem pelo bem estar de suas proles. Se bem que todos estão sozinhos quando há uma invasão da polícia, do exército ou de bandidos
de fora da comunidade.

A sorte de Carla é que, ao cantar, não percebia o quanto caminhava mais rápido e, constantemente, chegava até o Anatole em menos tempo do que se caminhasse calada, em silêncio. Ao chegar à proximidade do Anatole, percebeu que algo não estava indo bem. Havia uma movimentação muito grande de pessoas, dois carros de polícia e um rabecão dos bombeiros bem em frente da entrada principal do colégio. Foi a Ritinha, faxineira do colégio, que recebeu Carla no portão. Havia muito reboliço, muita agitação, e as coisas que Ritinha
dizia saiam atropeladas e se amontoavam, não dando tempo para que Carla entendesse bem o que havia acontecido. Tudo o que ela pôde assimilar foi que algo ruim havia acontecido. Em seu rosto, a serenidade que a música lhe deu foi sacudida pelas palavras atropeladas da Rita.

- Não vai haver aula hoje, filhinha. – Disse Rita com um sorriso amistoso, tentando se antecipar à pergunta que Carla faria inevitavelmente.
- O que aconteceu? – Perguntou Carla, deixando evidente que tudo o que
lhe foi falado anteriormente havia sido em vão.
- Eu já não lhe disse filha?

Dona Rita envolveu os ombros da jovem com os seus braços e disse, em sussurros quase inaudíveis, que dois homens foram mortos dentro do colégio durante a noite anterior. Rita revelou, também, que estavam comentando que os mortos deviam quantias irrisórias ao tráfico, e que os policiais que entraram na comunidade foram escoltados pelos abutres que estavam circulando a todo instante na frente do Anatole armados com armas que apenas especialistas sabiam o nome.

domingo, 2 de maio de 2010

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - 3ª Parte

Vencida a barreira do caminho das torres, Carla sentia medo, também, de passar pelos homens armados na entrada da comunidade “A”. Para entrar lá, qualquer pessoa, tinha de responder a perguntas que os bandidos faziam. O que era estranho é que o medo que os bandidos sentiam de serem surpreendidos por outros bandidos da comunidade vizinha, levava-os a bolarem perguntas sobre toda a sorte de coisas e de todo grau de dificuldade. Parecia que se uma pessoa fosse capaz de responder às suas perguntas, não havia a possibilidade de que tal pessoa ser um bandido.

Certa vez, um rapaz muito bonito, bem vestido e estiloso na aparência, cruzou o pórtico que havia na entrada da favela e foi parado por dois sentinelas armados, que lhes perguntaram, note só, os nomes de todos os jogadores da seleção brasileira de futebol na copa do mundo de 1970 em ordem alfabética. Os biltres ficaram boquiabertos quando o jovem, com toda a elegância do mundo, começou a alistar um a um os nomes dos jogadores. Várias pessoas que esperavam sua vez de serem alvejadas com perguntas descabidas que cerceavam seus direitos aproveitaram para entrarem na comunidade enquanto os bandidos ficaram distraídos com o grande feito memorialístico do jovem rapaz.

Lembro-me, perfeitamente, de um entregador de contas de luz que toda vez que entrava na comunidade era perguntado sobre o nome e o sobre-nome de todos os moradores que receberiam suas contas. Todos os dias o homem respondia bem no início, mas por volta do trigésimo ou do quadragésimo nome, sua memória começava a falhar. Era uma realização hercúlea conseguir gravar os nomes de 825 clientes da concessionária. Os bicheiros começaram a organizar apostas, primeiro se o homem alcançava 50 nomes, depois 70, até que quando o entregador alcançou 100 nomes, um apostador recebeu uma bela quantia em dinheiro.

Houve um dia, porém, que para surpresa de todos, o homem respondeu de forma exata todos os nomes dos clientes que moravam naquela localidade. Muitas pessoas suspeitam até hoje de alguma fraude, ou algum ato de astúcia utilizado pelo homem, mas o fato é que ele conseguiu falar os nomes de 825 pessoas. Mesmo pasmados com o grande feito do entregador, os malandros continuaram mostrando quem mandava no pedaço. Disseram ter perguntado quantos clientes receberiam suas contas e, segundo eles, a resposta exata era ‘quantos eles permitissem’. O que era verdade. O pobre homem poderia continuar tentando, mas imaginou que seria inútil ir contra a burocracia do tráfico. Voltou as costas à entrada da favela e caminhou desolado até o ponto de ônibus mais próximo. Ao avistar o seu ônibus, fez sinal com as mãos para que parasse, entrou nele e nunca mais foi visto por ninguém. Provavelmente perdeu o emprego. O fato é que outros entregadores de contas de luz surgiram, mas nenhum deles persistiu por mais de uma semana na tentativa de decorar nomes. Era por isso que ninguém na comunidade pagava luz.

Para Carla as perguntas nunca eram tão difíceis. Já lhe perguntaram muitas coisas antes. Perguntas sem nenhum cabimento, que a faziam refletir por qual motivo as pessoas se sujeitam a esta forma de cerceamento de sua liberdade. Certa vez perguntaram-lhe qual era a diferença dos termos ‘complexo’ e ‘complicado’ segundo o pensamento de Morin. Mais estapafúrdia foi a pergunta “qual o nome do conto de Borges em que um personagem diz ‘o fator estético não pode prescindir de um certo elemento de assombro’?” Desde quando selvagens que torturam e matam com requinte de crueldade conhecem a literatura de Borges?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - 2ª Parte

As duas comunidades vizinhas são dominadas atualmente por uma mesma facção criminosa, mas na época em que esta história aconteceu, duas facções rivais diferentes dominavam uma comunidade cada.

Carla Camuratti, a atriz e cineasta, estava em evidência quando nossa Carla nasceu. Não era tão bela quanto a Carla cineasta, mas tinha seus encantos. Tinha, também, dificuldade de enxergar à distância por causa da miopia e do astigmatismo, que lhe obrigavam a usar óculos
constantemente. Seus óculos tinham uma bela armação, o que fazia seu encanto não ser tão afetado, muito pelo contrário, tinha um ar inteligente e sedutor ao limpar as lentes dos óculos e, vez em quando, ao meditar, mordia uma das extremidades da armação em poses que
ficariam perfeitas em anúncios de lentes tão comuns nas paredes das óticas.

Por ter aparência de professora desde pequena, decidiu que faria o 2°grau numa escola que oferecesse o curso de formação de professores. Achava linda a imagem de uma multidão de moças vestidas com blusa branca e saias de pregas azul-escuro, abraçadas com seus cadernos, que invadiam o centro de Nova Iguaçu vindas do colégio João Luis do Nascimento. “– Mãe, quero ser normalista quando crescer!” – Dizia Carla com uma empolgação que resistiu a passagem de tempo, alcançando a adolescência. Aqui a vemos já na época dos estágios.
Conseguiu uma vaga para estagiar na escola Anatole France. Esta escola fica no meio de uma das comunidades, entre a comunidade que podemos chamar de comunidade “A”, e Carla morava no centro da outra comunidade, que chamaremos de comunidade “B”. No meio do caminho, entre uma comunidade e outra, não havia apenas uma pedra, mas um lixão, os urubus, as torres de energia, os campos de futebol, os mortos, as balas traçantes e o medo que Carla sentia ao ter que passar sozinha pelo caminho das torres.

Caminhava com receio, olhando para os lados e para trás de si. Nesta manhã, uma mulher levava os filhos para escola, duas crianças que por já terem nascido no meio da violência, não tinham lembrança alguma da época em que a segurança não era uma preocupação tão grande. As crianças corriam brincando de bolinha de gude enquanto andavam, e se afastavam um pouco da mãe, que lhes gritava os nomes para que esperassem por ela. A mulher e os dois garotos estavam a cerca de 100 metros de distância de Carla, á sua frente. Por mais que andasse rápido, não conseguiria alcançá-los. Um pouco menos distante caminhava uma senhora idosa. Andava lentamente, o que fez com que Carla se perguntasse por qual motivo ela não optou por ir de ônibus. Mas, Carla sabia que ninguém iria escolher pegar um ônibus apenas para não passar pelo caminho das torres. Passar pelo caminho das torres é muito mais
rápido pois corta caminho. No caso de Carla, de sua casa até o ponto em que deveria descer para chegar ao Anatole, são apenas duas paradas. Quase não dá tempo de passar pela roleta e descer sem pedir para o motorista esperar um pouco.

O ônibus contorna um morro numa curva bastante acentuada para a direita, anda por uns 150 ou no máximo 200 quilômetros, faz nova curva para a esquerda, acelera um pouco e, depois de atingir uns 75 ou 80 quilômetros por hora, freia com força para não passar do ponto. Talvez
não mais que cinco minutos e todo um microcosmos que é o lixão do caminho das torres some completamente das vistas dos passantes. Mas ele ainda está lá, mesmo que não o vejam.

domingo, 18 de abril de 2010

O Dia Que Carla Camuratti Achou Um Sorriso - 1° Parte.

Vários urubus reviravam o lixo em busca de comida. Às vezes, quando uma pessoa passava muito perto, olhavam de forma ameaçadora. Se alguém se aproximasse um pouco mais, davam pequenos vôos e pousavam alguns metros mais distante, o tanto quanto pudessem considerar uma distância segura. Mantinham suas asas abertas para parecerem maiores e mais
ameaçadores do que eram realmente. O movimento de ficarem parados observando as pessoas com as asas abertas servia, também, para permanecerem preparados para novos vôos que os afastariam mais alguns metros de qualquer um que se aproximasse novamente.

Carla tinha medo de passar pelo caminho das torres, como era chamada uma faixa regular de terra que tinha grandes torres de energia e seus cabos como firmamento e, em baixo das torres, dois campos de futebol e um lixão onde habitavam os urubus. O já referido caminho das torres ligava uma comunidade carente que fica de um lado das torres a outra comunidade carente que fica do outro lado. Alguns chamam este terreno de Faixa de Gaza. Isto é um problema, posto que outras comunidades reivindicam o direito de usarem com exclusividade o nome Faixa de Gaza. Argumentam que as suas Faixas de Gaza são mais perigosas, mais famosas e, por estes motivos, mais merecedoras do título.

Disputa inútil na opinião de Carla, e na de qualquer pessoa sensata, já que tal título não é em nada lisonjeiro. Refere-se ao fato de que à noite, era comum ver balas traçantes de fuzis cruzarem os céus à cima das torres. Em resultado disso, muitas eram as manhãs que desvelavam com os primeiros raios de sol a imagem de corpos desovados no lixão. Os urubus, os corpos, o mau cheiro do lixo, a solidão, estes são os principais motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres. O medo diminuía um pouco quando Carla passava por lá
acompanhada por outras pessoas. Parecia que quanto mais pessoas a acompanhassem, maior a probabilidade de evitar uma hecatombe. Às vezes, aproveitava a carona do seu tio, que ia de bicicleta para a estação de trens, e atravessava com ele o caminho das torres.

Costumava sentar no bagageiro da bicicleta de lado e segurar na barriga de seu tio. Nessas oportunidades gostava de fechar os olhos para não ver o lixão. Parecia flutuar por sobre toda aquela miséria. Nesses breves momentos sentia-se a pessoa mais importante do mundo,
como se estivesse alcançado o paraíso.

Um dia estava assim voando baixo, desligada do mundo, quando seu tio que estava correndo numa boa velocidade com a bicicleta, desviou de forma brusca de algo que surgiu inesperadamente no seu caminho e soltou uma exclamação de surpresa em forma de palavra chula. Balançou de um lado para o outro o guidão da bicicleta, quase levando Carla ao
chão. Por instinto, ela segurou ainda mais forte e cerrou ainda mais os olhos para não ver o tombo que por pouco não levaram. Não era uma pedra que estava no meio do caminho e sim o corpo de um homem morto que foi abandonado ali, quase escondido pelo mato ralo o suficiente para esconder um defunto. Quase que atropelaram o morto. Como já dito, estes são os motivos de Carla ter medo de passar pelo caminho das torres.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Filmes da Minha Geração (Peu)

Considero que a minha geração é o período de tempo que começou desde o momento em que eu sabia tomar as minhas decisões conscientemente, julgar o que é certo e errado, avaliar as coisas com madureza.

Partindo deste pressuposto, creio que filmes espetaculares que assisti e que assisto, mas que já foram feitos a muito tempo atrás não devem entrar numa lista de filmes da minha geração. São ótimos sim, mas, não são da minha geração.

Sendo assim, eu vou fazer uma breve lista de filmes que considero entre os melhores. Correspondem a produções de meados da década de 90 do século passado até os nossos dias. Certamente haverá muitas ausências de boas produções, mas, listas são só isso, listas.

“Os 12 Macacos” (1995)
“Matrix” (1998)
“O Clube da Luta” (1999)
“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001)
“Cidade de Deus” (2002)
“O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004)
“Mais Estranho que a Ficção” (2006)
“Os Infiltrados” (2006)
“Sangue Negro” (2007)
“Batman – cavaleiro das Trevas” (2008)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Moebius, Linguagem e Exclusão: Uma Crônica para Educadores e Futuros Professores


“Ele simplesmente fez com que o projetor de partículas cromáticas de dupla polarização entrasse em ressonância com a válvula de introspecção, o que destruiu a caixa a cabo... e provocou (...) a criação de um campo antitempo cujo epicentro estava ligado ao circuito cronótico de meu laboratório de pesquisas das cronopartículas...” (Moebius. “Le Garage Hermétique”. 1992.).

O que dizer de um texto como este? Primeiramente, uma explicação: trata-se da conclusão da história em quadrinhos “A Garagem Hermética”, de Moebius. Será que uma obra como esta é acessível a todo tipo de leitor? Será um desacato à ignorância das massas? Ou, quem sabe, só mais uma obra de qualidade artística duvidosa, fruto de algum peiote, cogumelo, ou droga (?) do gênero?
O que nos importa é a linguagem.

As últimas postagens desse blog prepararam, propositalmente, o terreno para essa crônica. Uma crônica para educadores e futuros professores.

Decerto, o texto acima não pode ser compreendido por qualquer pessoa e o autor nem esperava por isto. Moebius escreveu para o SEU público-alvo. “Então ocorreu uma exclusão premeditada através da linguagem, pois se sabia que uma gama de pessoas não compreenderia o conteúdo de seu trabalho”. Não vou me ater a discursos coléricos imbuídos de um pseudopaternalismo, prender-me-ei ao discurso dos que buscam soluções com os recursos que possui, no caso, minhas posses se resumem a idéias.

Futuros pedagogos devem pensar: “O que é preciso fazer para não ser um “Moebius” em sala de aula?” A resposta é simples: “Valer-me de um texto compreensível para o meu público-alvo(alunos).”

Em um primeiro momento, dou a impressão de que incentivo a ignorância das massas, mencionada no inicio do texto, mas minha proposta está longe disto. Utilizar uma linguagem acessível aos alunos significa cativá-los. “Você é eternamente responsável por quem cativas” (SAINT EXUPÈRY, Antoine de. “O Pequeno Príncipe”. 1943[original]). Uma boa relação com o alunado proporcionará futuras inserções mais “herméticas” na relação professor-aluno, seja no diálogo puro e simples, seja na execução de trabalhos conteudistas. O professor não deve ser pai, mas deve auxiliar a preparação do aluno para um mundo onde dominar a intrincada rede de formalidades é primordial.

Moebius não era um gênio, mas dominava esta rede. “Com a Garagem Hermética, tudo aconteceu deste jeito. Desenhei as duas primeiras páginas com a intenção de fazer uma piada (...) que (...) não levaria a lugar nenhum. (...) Jean-Pierre Dionnet me chamou e cobrou o final da história e eu, é claro, tinha me esquecido completamente (o que era o final). (...) em estado de pânico, fiz mais duas páginas para ganhar tempo. (...) a história termina numa seqüência que introduz um fator de incoerência potencialmente ilimitado”.(Moebius. “Os mundos fantásticos de Moebius”. 1992. Globo. RJ).

Ressalto: Moebius escreveu esta obra durante quatro anos em formato de folhetins mensais, sempre publicando algumas páginas vivendo sob a pressão do editor para dar um final à história. Um final que ele nunca inventou.

A obra foi concluída com ares de art-nouveau, algo inesperado inicialmente. E mesmo após a revelação acima (que surgiu anos depois), Moebius ainda manteve a pompa de artista-gênio.
Não quero adentrar na reflexão sobre “o que é arte?”, nem sobre a genialidade de Moebius (na minha opinião um artista fenomenal). Porém é fato consumado: o sucesso pode depender do domínio desta linguagem hermética.

Djavan é um exemplo do trabalho que um educador deve fazer. Através de melodias impactantes, apresenta poesias belíssimas, o que lhe garante respeito e reconhecimento. É provável que músicas como “Açaí” possam ter o “Selo Moebius de Qualidade”, mas assim se vive na sociedade dominante. A linguagem quer excluir.

Não quero mobilizar o futuro professorado numa busca por “David Linch”s com seus “Twin Peaks”, tampouco crianças refletindo com um vocabulário “djavânico”. Desejo que esta reflexão sirva como um ponto de vista a ser discutido juntamente com outras que surgirão. E quem sabe, num devaneio utópico, a linguagem e a exclusão deixem de possuir uma relação tão estreita. Finalizando aos professores de amanhã:

Não precisamos nos tornar um “Moebius” na vida, ou em sala de aula; mas é digno almejar que nossos alunos, ou filhos, um dia o sejam. Hipocrisia, não.

* Desculpe-nos a ausência mais uma vez por problemas técnicos.
** Em breve um novo conto de Peu.
*** Em tempo: A Mórbida Investigação e o Edifício Brasil não foram esquecidas... As interrupções do blog por problemas técnicos afetaram a publicação de ambas.
**** Abraços fraternos da Secretistas. Estamos de volta!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Selo Moebius de Qualidade

(A.Lessa)

Saia da garagem, Seu Moebius!
Saia desse canto de armação!
Já cansei de tanto hermetismo!
Cinismo, não!

Essa poesia tem seu selo.
Essa tinta parece carmim.
Uso para embelezamento.
Afeito, sim!

Sai fora! Se cria! Escarra!
Pode até chamar a Laura
Que eu tô legal.
Eu não tenho medo de palma
Me passa o sal!

Sou benquisto em Coelho Neto
Do avô que lincha todo mundo.
O difícil é ser num universo
Onde se escalpela até couro desnudo.

Cadê o Zé?! São 09:05!
Não pensa muito não, amigo! Corre!
Isso tudo é uma grande presepada.
Moebius pensando que é sapiente.

Para terminar.
Parem de apertar.
Passa a língua nesse selo
Pra dialogar.
Quando o Dias tentar
A ti explicar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Açaí do Moebius

(A.Lessa)

Hoje no céu de veludo vejo
Estrelas de algodão.
Distanciam-se na noite.
Hoje não tô bom!
Meu corpo moeu...
Só de pensar...
Pará!
Trem indo pro subúrbio
E pela hora envolto em brasas...
Olha!
Noiva de véu cor-de-rosa
Com alfinetes e vodu...
Ouça!
Nêgo caiu! Descarrilhou!
Deve ser tiro de fuzil...
Mas não tem nada não...
O açaí do Seu Moebius
Continua muito bom...

Extraída do livro "Negro Rom", de Lessa e Alcantara.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma Viagem em Busca do Novo


Como surgem as boas idéias? Eis uma pergunta da qual todo escritor gostaria de ter a resposta. Não só a resposta, mas porque não, um esquema simples, uma receita onde se mistura tudo, coloca no forno e... Pronto! Mais uma idéia quentinha, inédita, pronta para ser saboreada.

Uma pena. Nunca existirá uma receita assim. Certamente as boas idéias existem em algum lugar, em alguma realidade distante, e repentinamente somos surpreendidos. Alguns dizem que a hora do banho é sagrada. O banheiro, em geral, é considerado um excelente reduto para as boas idéias. Num momento de ócio somos surpreendidos com pensamentos, visões, sonhos e subitamente percebemos: “Isso pode dar uma história interessante. Vou escrever isso”. E se não escrever... Pode ter certeza, em instantes esquecerá e terá perdido uma dádiva oriunda de um mundo ainda pouco conhecido.
Certa vez percebi que a busca pelo ineditismo é traiçoeira. Pode fazer de um escritor promissor, uma promessa de mediocridade. Lembro-me bem, quando era um leitor compulsivo de revistas em quadrinhos, de uma reunião objetivando a criação de uma história totalmente nova, do tipo “você nunca viu nada parecido antes” (esse era o nosso lema, dito e repetido incontáveis vezes).
A equipe: eu e um amigo desenhista. Ambos escreveriam a história, ele desenharia. Eis um resumo do diálogo:

- Temos que escrever algo novo. Nunca visto antes. Nunca lido antes.
- É verdade. Não podemos abdicar disso.
- Então vamos lá... Esse negócio de super-herói... Temos que tomar cuidado. Você vê... É tudo igual.
- É... Tudo com aqueles uniformes extravagantes...
- Você vai querer escrever sobre super-herói?
- Não sei... Eu estava pensando em escrever algo totalmente novo...
- Eu também...
- E super-herói... Todo mundo escreve sobre super-herói!
- É verdade, o próprio conceito de super-herói... É algo já desgastado, batido.
- Então chegamos num consenso... Nada de super-heróis.
- A gente vai falar sobre o quê... Vejamos...
- Podemos falar sobre pessoas... Não sei...
- Pessoas? Falar sobre pessoas é algo que todo mundo faz... Você quer dizer algo tipo Seinfeld, né?!
- Confesso que sim...
- Tá vendo. É fogo, é difícil mesmo escrever algo novo...
- É... É difícil... Tem que ser algo diferente.
- É... Algo que ninguém nunca viu antes!
- Pessoas a gente vê toda hora... O próprio conceito de pessoas...
- Engraçado... Eu tava pensando nisso agora!
Ambos riram.
- Não podemos escrever sobre pessoas...
- Nem sobre alienígenas!
- É... Alienígenas são criações de pessoas...
- Podem existir...
- Mesmo se não existem concretamente, no imaginário das pessoas...
- É difícil...
- Eu falei que ia ser fogo...
- As formas humanóides não servem... Lembram seres humanos. Lembram a vida terrena... Um tema desgastado! A vida em planetas é um tema desgastado em si...
- Eu pensei nisso... Mesmo se criássemos vida em outro planeta... É tolo!
- Não pode ser planeta... Nem vida... Acho que o caminho é criarmos outros seres, com outros sentidos... Outra forma.
- Criar um sentido... Vejamos...
- Porque se criarmos um ser que tem visão, é meio humano, animal.
- Criar sentidos é algo meio além da minha imaginação... Minha mente não alcança...
- Aí, essa agora... Senti que esse é o caminho! Levar a mente ao inalcançável!

Enfim... O assunto durou muito tempo. Chegamos num ser que era apenas essência. Não tinha forma, e os sentidos criaríamos depois. Não poderia ser uma luz, porque luz existia. Não podia nem ser um ser, porque o conceito de ser... Já imaginaram o que vem a seguir.
Percebemos que tínhamos criado o nada, o vazio. E minutos depois nos demos conta de que o nada também existia! A única coisa que criamos ali, após uma hora de elucubrações inúteis, foi nossa própria incompetência criativa!

Nós éramos ali a promessa de mediocridade que sequer tinha ido para o papel.

Alexandre Lessa.