NEGRO ROM

NEGRO ROM
INICIATIVA QUE RECONHECE A DIFERENÇA

domingo, 24 de janeiro de 2010

Açaí do Moebius

(A.Lessa)

Hoje no céu de veludo vejo
Estrelas de algodão.
Distanciam-se na noite.
Hoje não tô bom!
Meu corpo moeu...
Só de pensar...
Pará!
Trem indo pro subúrbio
E pela hora envolto em brasas...
Olha!
Noiva de véu cor-de-rosa
Com alfinetes e vodu...
Ouça!
Nêgo caiu! Descarrilhou!
Deve ser tiro de fuzil...
Mas não tem nada não...
O açaí do Seu Moebius
Continua muito bom...

Extraída do livro "Negro Rom", de Lessa e Alcantara.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma Viagem em Busca do Novo


Como surgem as boas idéias? Eis uma pergunta da qual todo escritor gostaria de ter a resposta. Não só a resposta, mas porque não, um esquema simples, uma receita onde se mistura tudo, coloca no forno e... Pronto! Mais uma idéia quentinha, inédita, pronta para ser saboreada.

Uma pena. Nunca existirá uma receita assim. Certamente as boas idéias existem em algum lugar, em alguma realidade distante, e repentinamente somos surpreendidos. Alguns dizem que a hora do banho é sagrada. O banheiro, em geral, é considerado um excelente reduto para as boas idéias. Num momento de ócio somos surpreendidos com pensamentos, visões, sonhos e subitamente percebemos: “Isso pode dar uma história interessante. Vou escrever isso”. E se não escrever... Pode ter certeza, em instantes esquecerá e terá perdido uma dádiva oriunda de um mundo ainda pouco conhecido.
Certa vez percebi que a busca pelo ineditismo é traiçoeira. Pode fazer de um escritor promissor, uma promessa de mediocridade. Lembro-me bem, quando era um leitor compulsivo de revistas em quadrinhos, de uma reunião objetivando a criação de uma história totalmente nova, do tipo “você nunca viu nada parecido antes” (esse era o nosso lema, dito e repetido incontáveis vezes).
A equipe: eu e um amigo desenhista. Ambos escreveriam a história, ele desenharia. Eis um resumo do diálogo:

- Temos que escrever algo novo. Nunca visto antes. Nunca lido antes.
- É verdade. Não podemos abdicar disso.
- Então vamos lá... Esse negócio de super-herói... Temos que tomar cuidado. Você vê... É tudo igual.
- É... Tudo com aqueles uniformes extravagantes...
- Você vai querer escrever sobre super-herói?
- Não sei... Eu estava pensando em escrever algo totalmente novo...
- Eu também...
- E super-herói... Todo mundo escreve sobre super-herói!
- É verdade, o próprio conceito de super-herói... É algo já desgastado, batido.
- Então chegamos num consenso... Nada de super-heróis.
- A gente vai falar sobre o quê... Vejamos...
- Podemos falar sobre pessoas... Não sei...
- Pessoas? Falar sobre pessoas é algo que todo mundo faz... Você quer dizer algo tipo Seinfeld, né?!
- Confesso que sim...
- Tá vendo. É fogo, é difícil mesmo escrever algo novo...
- É... É difícil... Tem que ser algo diferente.
- É... Algo que ninguém nunca viu antes!
- Pessoas a gente vê toda hora... O próprio conceito de pessoas...
- Engraçado... Eu tava pensando nisso agora!
Ambos riram.
- Não podemos escrever sobre pessoas...
- Nem sobre alienígenas!
- É... Alienígenas são criações de pessoas...
- Podem existir...
- Mesmo se não existem concretamente, no imaginário das pessoas...
- É difícil...
- Eu falei que ia ser fogo...
- As formas humanóides não servem... Lembram seres humanos. Lembram a vida terrena... Um tema desgastado! A vida em planetas é um tema desgastado em si...
- Eu pensei nisso... Mesmo se criássemos vida em outro planeta... É tolo!
- Não pode ser planeta... Nem vida... Acho que o caminho é criarmos outros seres, com outros sentidos... Outra forma.
- Criar um sentido... Vejamos...
- Porque se criarmos um ser que tem visão, é meio humano, animal.
- Criar sentidos é algo meio além da minha imaginação... Minha mente não alcança...
- Aí, essa agora... Senti que esse é o caminho! Levar a mente ao inalcançável!

Enfim... O assunto durou muito tempo. Chegamos num ser que era apenas essência. Não tinha forma, e os sentidos criaríamos depois. Não poderia ser uma luz, porque luz existia. Não podia nem ser um ser, porque o conceito de ser... Já imaginaram o que vem a seguir.
Percebemos que tínhamos criado o nada, o vazio. E minutos depois nos demos conta de que o nada também existia! A única coisa que criamos ali, após uma hora de elucubrações inúteis, foi nossa própria incompetência criativa!

Nós éramos ali a promessa de mediocridade que sequer tinha ido para o papel.

Alexandre Lessa.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010!!!

Desejamos a todos um maravilhoso ano de 2010!!!

A lista do "Secretistas e Suas Timidezes" para 2010:
  • Que os impedimentos de 2009 que tornaram esse blog irregular, permaneçam em 2009.
  • Que o Edifício Brasil continue firme!
  • Que os nossos seres vivos sejam respeitados, Animalia, ou não.
  • Que a Mórbida Investigação chegue a um final feliz (preferencialmente).
  • Que os únicos Doutores necessários durante o ano sejam os da tirinha.
  • Que o brasileiro possa enxergar beleza na poesia (não deveria ser tão difícil).
  • Que os filmes continuem servindo de inspiração, e tocando os corações mais sensíveis.
E, o principal:
  • Que todos realizem muito e sejam felizes!!!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Epopéia

(J.C.Alcantara)

Mi, quando eu me for,
Fui.
Dou uma passada
Na sua casa, casada.
Um beijo, um abraço, um tchau,
Fui.

Passo na casa do Zequinha,
"-Zeca, queria fazer uma pergunta:
A gente termina o alicerce
Domingo?"
A paciência do fim de semana acaba,
Eu findo.

O Rogério foi pra enfermaria
A consciência tá me cobrando
Uma visita, e
Eu fazendo artesanato...
...Queria mesmo é terminar meu quadro,
Mas o Lessa disse apenas:
"-Zé, era azul da Prússia
Ao redor dos caquis."

E agora, José?
A light cortou a luz
Do fim do túnel.
O que falta é PAIXÃO,
Escrita assim mesmo,
Com maiúsculas.

Que dor!!!!!!
Como doi ver a Carla
Chorando por causa
Do Dente
E não fazer nada,
Pois, todo o mundo sabe
Que dor que doi mesmo
É a dor de consciência!

Querendo agradar a todos
Não agrado ninguém.
Ouço a voz do Vinicius,
Ledo engano,
O Vinicius não anda de trem.
Coitada da minha mamãe,
Nunca vai entender que
Chega uma hora
Que todo poeta fracassa
Se o amor não vem!

O ônibus tá chegando na Penha.
Olho pela janela
Enquanto as pessoas em pé nos pontos
passam.
Elas diriam, se me vissem, que
Quem passa sou eu.

Eu diria muitas coisas 'inda,
Se o que tenho a dizer
À professora
Não fosse atravancar o meu futuro,
Construindo no meio da minha sala
um muro, mas,
"Quem não tem nada a perder,
Não perde nada" - Diz o ditado.
Então pensarei duas vezes.
Uma vez, e mais outra 'inda,
Mas o que eu teria a perder,
Nem ganhei ainda.
Tô cansado de esperar a bonança,
Eu findo, minha paciência
Finda.

O camelô passa
Vendendo balas & bugigangas.
Eu compraria um ator,
Se ele me vendesse um papel,
Pois o meu está acabando.

Eu não me masturbo
Nem em pensamento!
Seria inércia dizer:
"O ônibus para, mas,
Eu sigo ao relento."

O Luan falou que "o cavalo é doce"
E que foi no parque sábado.
Todo sábado.
Todo dia é sábado.
Assim, meus olhos choram
Corações arrependidos.
Não tenho dinheiro direito
Pra comprar o que preciso.
Eu preciso apenas de
Coragem.

Mais cedo ou mais tarde
Vou ter de enfrentar a fera,
Não quero ver
Gaiolas na minha
Janela.

Mi, vou ter de sair,
Sumir por um tempo,
Pegar carona
Na mudança do vento.
Tô levando na bolsa
Seu beijo e alento.
E, no meu regresso,
Trarei muitos portentos.

Cheguei em casa cansado.
Tomar um banho é imperativo,
Descansar é cuidado.
Amanhã acordo cedo e
A luta recomeça outra vez.
Tem seu lugar
Confiado.

*O blog continua, um pouco devagar devido às dificuldades técnicas, mas continua. Em breve: capítulos inéditos de Edifício Brasil e Mórbida Investigação.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Aviso aos Secretistas!

A partir dessa semana reduziremos o número de postagens semanais. Em vez de 5 postagens, reduziremos a 3. Algumas dificuldades técnicas nos obrigaram a tomar essa atitude. A Mórbida Investigação e o Edifício Brasil, são postagens garantidas semanalmente. Doutores e Animalia Sensual não serão esquecidos, porém serão postados quinzenalmente, ou quando der mesmo.

Essa redução continuará até que os problemas técnicos, temporais e de logística sejam solucionados. Nada impede que outros secretistas publiquem novos títulos, aumentando o número de posts semanais, mas por enquanto é isso.

Ainda nessa semana: Mórbida Investigação #7.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Selva Ferina

(A.Lessa)

Você diz que não sou normal

Pensa que sou um animal

Leopardo excitado...

Pardo...

Em estado de nada mal.


Toda ansiedade

Toda certa idade

É você quem inventou.

E é chegado o momento

Um tempo sem intento

Em que um coração parou.


Já cansado do luto,

Do jejum, de tudo...

Eu parti...

Bicho solto, acuado

Com sorriso guardado...

Como álibi.


Do livro "Negro Rom", 2005. de LESSA, Alexandre; e ALCANTARA, José Carlos de.


*Amanhã postaremos: Animalia Sensual e Edifício Brasil.

Escola

(J.C.Alcantara)

Um quadrado,
Um monte de pessoas,
Nenhuma imaginação.
É a descrição de uma sala de aula.
A descrição de uma escola é diferente:
Dez quadrados,
Mais pessoas ainda e
Menos imaginação.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Efemeridades Vis

(A.Lessa)


Telepatia não me sacia

Sai saci sassarica na Síria

Projeção astral perdeu a graça

Só me engraço em sangria ou desgraça

Tudo para quê?!

Rotineiro é sentir e não ter...


Sou uma ave e o céu me anuvia

Lanço vôo em mares de luz, arauto do dia.

Concupiscente, sou. E fiel.

Atualmente existem restrições

Certas coisas são proibições

Obediente, sou. E meio insano...

Quiçá, talvez...

Sei que sou...


Tô cansado de todo esse tolhimento!

Se amar é pecado, meu bem

Eu lamento...

Eu não posso mais...

Desejá-la apenas em meus

Pensamentos


Agora navego em corredeiras de lágrimas

Não há sua voz, brincadeira... nem nada!

Quando a noite cai...

E no lúdico não há amantes

O arrependimento sobressai...

Refiro-me ao tocante e aos

Pactos que fiz...

Bichos da seda e seus

Hímens de veludo, anis...

São belezas...

E efemeridades vis.


Do livro Negro Rom (2005), de Alcantara e Lessa. Rio de Janeiro, RJ.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Mundo

(J.C.Alcantara)

Se eu estou feliz
O mundo está.

Se estou triste,
Triste o mundo está.

Eu sou o mundo
Que me rodeia.

Seu pó é o sangue
Que corre nas minhas veias.

Seus átomos, água e ar,
Me constituem como o sal ao mar.

Eu sou a luz da vela que se extingue
Bruxuleante num bar.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ato Falho

(A.Lessa)

Não devia ter comido aquela ameixa
Achando que fosse uma azeitona preta.
E agora?!
O problema é meu.

Eu queria vinagrelha
E veio mel.
Devo ter cuspido
Nos babados do véu.

Meus dentes sujos de piche.
Oh! Grude encanto...
Na minha garganta a ânsia
É de acalanto...

Foi o pecado da gula?
Ou o apetite é peixe?
Ai...
A disenteria é rio,
Mas na mão não resolvia
Um processo desse tipo.

Agora que entrou
Vai ter que sair
Eu não posso mais ser
Responsável por ti.
Se eu cultivei,
Mas colhi errado.
Cada um que chame
Seu guia confiado...

Fonte: "Negro Rom" (2005); de Alexandre Lessa e José Carlos de Alcantara. Rio de Janeiro - RJ.