quinta-feira, 1 de abril de 2010
Moebius, Linguagem e Exclusão: Uma Crônica para Educadores e Futuros Professores
“Ele simplesmente fez com que o projetor de partículas cromáticas de dupla polarização entrasse em ressonância com a válvula de introspecção, o que destruiu a caixa a cabo... e provocou (...) a criação de um campo antitempo cujo epicentro estava ligado ao circuito cronótico de meu laboratório de pesquisas das cronopartículas...” (Moebius. “Le Garage Hermétique”. 1992.).
O que dizer de um texto como este? Primeiramente, uma explicação: trata-se da conclusão da história em quadrinhos “A Garagem Hermética”, de Moebius. Será que uma obra como esta é acessível a todo tipo de leitor? Será um desacato à ignorância das massas? Ou, quem sabe, só mais uma obra de qualidade artística duvidosa, fruto de algum peiote, cogumelo, ou droga (?) do gênero?
O que nos importa é a linguagem.
As últimas postagens desse blog prepararam, propositalmente, o terreno para essa crônica. Uma crônica para educadores e futuros professores.
Decerto, o texto acima não pode ser compreendido por qualquer pessoa e o autor nem esperava por isto. Moebius escreveu para o SEU público-alvo. “Então ocorreu uma exclusão premeditada através da linguagem, pois se sabia que uma gama de pessoas não compreenderia o conteúdo de seu trabalho”. Não vou me ater a discursos coléricos imbuídos de um pseudopaternalismo, prender-me-ei ao discurso dos que buscam soluções com os recursos que possui, no caso, minhas posses se resumem a idéias.
Futuros pedagogos devem pensar: “O que é preciso fazer para não ser um “Moebius” em sala de aula?” A resposta é simples: “Valer-me de um texto compreensível para o meu público-alvo(alunos).”
Em um primeiro momento, dou a impressão de que incentivo a ignorância das massas, mencionada no inicio do texto, mas minha proposta está longe disto. Utilizar uma linguagem acessível aos alunos significa cativá-los. “Você é eternamente responsável por quem cativas” (SAINT EXUPÈRY, Antoine de. “O Pequeno Príncipe”. 1943[original]). Uma boa relação com o alunado proporcionará futuras inserções mais “herméticas” na relação professor-aluno, seja no diálogo puro e simples, seja na execução de trabalhos conteudistas. O professor não deve ser pai, mas deve auxiliar a preparação do aluno para um mundo onde dominar a intrincada rede de formalidades é primordial.
Moebius não era um gênio, mas dominava esta rede. “Com a Garagem Hermética, tudo aconteceu deste jeito. Desenhei as duas primeiras páginas com a intenção de fazer uma piada (...) que (...) não levaria a lugar nenhum. (...) Jean-Pierre Dionnet me chamou e cobrou o final da história e eu, é claro, tinha me esquecido completamente (o que era o final). (...) em estado de pânico, fiz mais duas páginas para ganhar tempo. (...) a história termina numa seqüência que introduz um fator de incoerência potencialmente ilimitado”.(Moebius. “Os mundos fantásticos de Moebius”. 1992. Globo. RJ).
Ressalto: Moebius escreveu esta obra durante quatro anos em formato de folhetins mensais, sempre publicando algumas páginas vivendo sob a pressão do editor para dar um final à história. Um final que ele nunca inventou.
A obra foi concluída com ares de art-nouveau, algo inesperado inicialmente. E mesmo após a revelação acima (que surgiu anos depois), Moebius ainda manteve a pompa de artista-gênio.
Não quero adentrar na reflexão sobre “o que é arte?”, nem sobre a genialidade de Moebius (na minha opinião um artista fenomenal). Porém é fato consumado: o sucesso pode depender do domínio desta linguagem hermética.
Djavan é um exemplo do trabalho que um educador deve fazer. Através de melodias impactantes, apresenta poesias belíssimas, o que lhe garante respeito e reconhecimento. É provável que músicas como “Açaí” possam ter o “Selo Moebius de Qualidade”, mas assim se vive na sociedade dominante. A linguagem quer excluir.
Não quero mobilizar o futuro professorado numa busca por “David Linch”s com seus “Twin Peaks”, tampouco crianças refletindo com um vocabulário “djavânico”. Desejo que esta reflexão sirva como um ponto de vista a ser discutido juntamente com outras que surgirão. E quem sabe, num devaneio utópico, a linguagem e a exclusão deixem de possuir uma relação tão estreita. Finalizando aos professores de amanhã:
Não precisamos nos tornar um “Moebius” na vida, ou em sala de aula; mas é digno almejar que nossos alunos, ou filhos, um dia o sejam. Hipocrisia, não.
* Desculpe-nos a ausência mais uma vez por problemas técnicos.
** Em breve um novo conto de Peu.
*** Em tempo: A Mórbida Investigação e o Edifício Brasil não foram esquecidas... As interrupções do blog por problemas técnicos afetaram a publicação de ambas.
**** Abraços fraternos da Secretistas. Estamos de volta!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Selo Moebius de Qualidade
Saia da garagem, Seu Moebius!
Saia desse canto de armação!
Já cansei de tanto hermetismo!
Cinismo, não!
Essa poesia tem seu selo.
Essa tinta parece carmim.
Uso para embelezamento.
Afeito, sim!
Sai fora! Se cria! Escarra!
Pode até chamar a Laura
Que eu tô legal.
Eu não tenho medo de palma
Me passa o sal!
Sou benquisto em Coelho Neto
Do avô que lincha todo mundo.
O difícil é ser num universo
Onde se escalpela até couro desnudo.
Cadê o Zé?! São 09:05!
Não pensa muito não, amigo! Corre!
Isso tudo é uma grande presepada.
Moebius pensando que é sapiente.
Para terminar.
Parem de apertar.
Passa a língua nesse selo
Pra dialogar.
Quando o Dias tentar
A ti explicar.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Açaí do Moebius
Hoje no céu de veludo vejo
Estrelas de algodão.
Distanciam-se na noite.
Hoje não tô bom!
Meu corpo moeu...
Só de pensar...
Pará!
Trem indo pro subúrbio
E pela hora envolto em brasas...
Olha!
Noiva de véu cor-de-rosa
Com alfinetes e vodu...
Ouça!
Nêgo caiu! Descarrilhou!
Deve ser tiro de fuzil...
Mas não tem nada não...
O açaí do Seu Moebius
Continua muito bom...
Extraída do livro "Negro Rom", de Lessa e Alcantara.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Uma Viagem em Busca do Novo
Como surgem as boas idéias? Eis uma pergunta da qual todo escritor gostaria de ter a resposta. Não só a resposta, mas porque não, um esquema simples, uma receita onde se mistura tudo, coloca no forno e... Pronto! Mais uma idéia quentinha, inédita, pronta para ser saboreada.
Uma pena. Nunca existirá uma receita assim. Certamente as boas idéias existem em algum lugar, em alguma realidade distante, e repentinamente somos surpreendidos. Alguns dizem que a hora do banho é sagrada. O banheiro, em geral, é considerado um excelente reduto para as boas idéias. Num momento de ócio somos surpreendidos com pensamentos, visões, sonhos e subitamente percebemos: “Isso pode dar uma história interessante. Vou escrever isso”. E se não escrever... Pode ter certeza, em instantes esquecerá e terá perdido uma dádiva oriunda de um mundo ainda pouco conhecido.
Certa vez percebi que a busca pelo ineditismo é traiçoeira. Pode fazer de um escritor promissor, uma promessa de mediocridade. Lembro-me bem, quando era um leitor compulsivo de revistas em quadrinhos, de uma reunião objetivando a criação de uma história totalmente nova, do tipo “você nunca viu nada parecido antes” (esse era o nosso lema, dito e repetido incontáveis vezes).
A equipe: eu e um amigo desenhista. Ambos escreveriam a história, ele desenharia. Eis um resumo do diálogo:
- Temos que escrever algo novo. Nunca visto antes. Nunca lido antes.
- É verdade. Não podemos abdicar disso.
- Então vamos lá... Esse negócio de super-herói... Temos que tomar cuidado. Você vê... É tudo igual.
- É... Tudo com aqueles uniformes extravagantes...
- Você vai querer escrever sobre super-herói?
- Não sei... Eu estava pensando em escrever algo totalmente novo...
- Eu também...
- E super-herói... Todo mundo escreve sobre super-herói!
- É verdade, o próprio conceito de super-herói... É algo já desgastado, batido.
- Então chegamos num consenso... Nada de super-heróis.
- A gente vai falar sobre o quê... Vejamos...
- Podemos falar sobre pessoas... Não sei...
- Pessoas? Falar sobre pessoas é algo que todo mundo faz... Você quer dizer algo tipo Seinfeld, né?!
- Confesso que sim...
- Tá vendo. É fogo, é difícil mesmo escrever algo novo...
- É... É difícil... Tem que ser algo diferente.
- É... Algo que ninguém nunca viu antes!
- Pessoas a gente vê toda hora... O próprio conceito de pessoas...
- Engraçado... Eu tava pensando nisso agora!
Ambos riram.
- Não podemos escrever sobre pessoas...
- Nem sobre alienígenas!
- É... Alienígenas são criações de pessoas...
- Podem existir...
- Mesmo se não existem concretamente, no imaginário das pessoas...
- É difícil...
- Eu falei que ia ser fogo...
- As formas humanóides não servem... Lembram seres humanos. Lembram a vida terrena... Um tema desgastado! A vida em planetas é um tema desgastado em si...
- Eu pensei nisso... Mesmo se criássemos vida em outro planeta... É tolo!
- Não pode ser planeta... Nem vida... Acho que o caminho é criarmos outros seres, com outros sentidos... Outra forma.
- Criar um sentido... Vejamos...
- Porque se criarmos um ser que tem visão, é meio humano, animal.
- Criar sentidos é algo meio além da minha imaginação... Minha mente não alcança...
- Aí, essa agora... Senti que esse é o caminho! Levar a mente ao inalcançável!
Enfim... O assunto durou muito tempo. Chegamos num ser que era apenas essência. Não tinha forma, e os sentidos criaríamos depois. Não poderia ser uma luz, porque luz existia. Não podia nem ser um ser, porque o conceito de ser... Já imaginaram o que vem a seguir.
Percebemos que tínhamos criado o nada, o vazio. E minutos depois nos demos conta de que o nada também existia! A única coisa que criamos ali, após uma hora de elucubrações inúteis, foi nossa própria incompetência criativa!
Nós éramos ali a promessa de mediocridade que sequer tinha ido para o papel.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Feliz 2010!!!
A lista do "Secretistas e Suas Timidezes" para 2010:
- Que os impedimentos de 2009 que tornaram esse blog irregular, permaneçam em 2009.
- Que o Edifício Brasil continue firme!
- Que os nossos seres vivos sejam respeitados, Animalia, ou não.
- Que a Mórbida Investigação chegue a um final feliz (preferencialmente).
- Que os únicos Doutores necessários durante o ano sejam os da tirinha.
- Que o brasileiro possa enxergar beleza na poesia (não deveria ser tão difícil).
- Que os filmes continuem servindo de inspiração, e tocando os corações mais sensíveis.
- Que todos realizem muito e sejam felizes!!!
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Epopéia
Mi, quando eu me for,
Fui.
Dou uma passada
Na sua casa, casada.
Um beijo, um abraço, um tchau,
Fui.
Passo na casa do Zequinha,
"-Zeca, queria fazer uma pergunta:
A gente termina o alicerce
Domingo?"
A paciência do fim de semana acaba,
Eu findo.
O Rogério foi pra enfermaria
A consciência tá me cobrando
Uma visita, e
Eu fazendo artesanato...
...Queria mesmo é terminar meu quadro,
Mas o Lessa disse apenas:
"-Zé, era azul da Prússia
Ao redor dos caquis."
E agora, José?
A light cortou a luz
Do fim do túnel.
O que falta é PAIXÃO,
Escrita assim mesmo,
Com maiúsculas.
Que dor!!!!!!
Como doi ver a Carla
Chorando por causa
Do Dente
E não fazer nada,
Pois, todo o mundo sabe
Que dor que doi mesmo
É a dor de consciência!
Querendo agradar a todos
Não agrado ninguém.
Ouço a voz do Vinicius,
Ledo engano,
O Vinicius não anda de trem.
Coitada da minha mamãe,
Nunca vai entender que
Chega uma hora
Que todo poeta fracassa
Se o amor não vem!
O ônibus tá chegando na Penha.
Olho pela janela
Enquanto as pessoas em pé nos pontos
passam.
Elas diriam, se me vissem, que
Quem passa sou eu.
Eu diria muitas coisas 'inda,
Se o que tenho a dizer
À professora
Não fosse atravancar o meu futuro,
Construindo no meio da minha sala
um muro, mas,
"Quem não tem nada a perder,
Não perde nada" - Diz o ditado.
Então pensarei duas vezes.
Uma vez, e mais outra 'inda,
Mas o que eu teria a perder,
Nem ganhei ainda.
Tô cansado de esperar a bonança,
Eu findo, minha paciência
Finda.
O camelô passa
Vendendo balas & bugigangas.
Eu compraria um ator,
Se ele me vendesse um papel,
Pois o meu está acabando.
Eu não me masturbo
Nem em pensamento!
Seria inércia dizer:
"O ônibus para, mas,
Eu sigo ao relento."
O Luan falou que "o cavalo é doce"
E que foi no parque sábado.
Todo sábado.
Todo dia é sábado.
Assim, meus olhos choram
Corações arrependidos.
Não tenho dinheiro direito
Pra comprar o que preciso.
Eu preciso apenas de
Coragem.
Mais cedo ou mais tarde
Vou ter de enfrentar a fera,
Não quero ver
Gaiolas na minha
Janela.
Mi, vou ter de sair,
Sumir por um tempo,
Pegar carona
Na mudança do vento.
Tô levando na bolsa
Seu beijo e alento.
E, no meu regresso,
Trarei muitos portentos.
Cheguei em casa cansado.
Tomar um banho é imperativo,
Descansar é cuidado.
Amanhã acordo cedo e
A luta recomeça outra vez.
Tem seu lugar
Confiado.
*O blog continua, um pouco devagar devido às dificuldades técnicas, mas continua. Em breve: capítulos inéditos de Edifício Brasil e Mórbida Investigação.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Aviso aos Secretistas!
Essa redução continuará até que os problemas técnicos, temporais e de logística sejam solucionados. Nada impede que outros secretistas publiquem novos títulos, aumentando o número de posts semanais, mas por enquanto é isso.
Ainda nessa semana: Mórbida Investigação #7.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Selva Ferina
Você diz que não sou normal
Pensa que sou um animal
Leopardo excitado...
Pardo...
Em estado de nada mal.
Toda ansiedade
Toda certa idade
É você quem inventou.
E é chegado o momento
Um tempo sem intento
Em que um coração parou.
Já cansado do luto,
Do jejum, de tudo...
Eu parti...
Bicho solto, acuado
Com sorriso guardado...
Como álibi.
Do livro "Negro Rom", 2005. de LESSA, Alexandre; e ALCANTARA, José Carlos de.
Escola
Um quadrado,
Um monte de pessoas,
Nenhuma imaginação.
É a descrição de uma sala de aula.
A descrição de uma escola é diferente:
Dez quadrados,
Mais pessoas ainda e
Menos imaginação.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Efemeridades Vis
(A.Lessa)
Telepatia não me sacia
Sai saci sassarica na Síria
Projeção astral perdeu a graça
Só me engraço em sangria ou desgraça
Tudo para quê?!
Rotineiro é sentir e não ter...
Sou uma ave e o céu me anuvia
Lanço vôo em mares de luz, arauto do dia.
Concupiscente, sou. E fiel.
Atualmente existem restrições
Certas coisas são proibições
Obediente, sou. E meio insano...
Quiçá, talvez...
Sei que sou...
Tô cansado de todo esse tolhimento!
Se amar é pecado, meu bem
Eu lamento...
Eu não posso mais...
Desejá-la apenas em meus
Pensamentos
Agora navego em corredeiras de lágrimas
Não há sua voz, brincadeira... nem nada!
Quando a noite cai...
E no lúdico não há amantes
O arrependimento sobressai...
Refiro-me ao tocante e aos
Pactos que fiz...
Bichos da seda e seus
Hímens de veludo, anis...
São belezas...
E efemeridades vis.
Do livro Negro Rom (2005), de Alcantara e Lessa. Rio de Janeiro, RJ.