NEGRO ROM

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INICIATIVA QUE RECONHECE A DIFERENÇA

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Quem Tem Medo da Literatura Contemporânea? (Um Texto Direcionado para Os(As) Futuros(as) Escritores(as) Sem Medo)

(A.Lessa)

O poder na primeira pessoa
Poder em última instância
A mão alcançando o chapéu,
Acima de qualquer circunstância
Poder, poder, poder,
poder até não mais poder.

(O Poder - Marcelo Nova)


Ser humano gosta de poder.
Ser humano é gostar de poder, e do poder.
Ser humano gosta mesmo é do poder.
O universo literário, tão cheio de liberdade, está embriagado do medo da perda. Não é incomum a discussão sobre direitos autorais, sobre os creative commons da vida... Sobre de quem é o poder acerca da criação. O escritor, por mais humilde que finja, tem mania de Deus. Tende a ser o dono de seu universo criativo, da obra de arte – não mexa! Pode quebrar...

O escritor sabe que suas idéias são frutos de suas relações, mas prefere deixar subentendido. Sabe que o livro não vai sumir com o advento da tecnologia, no máximo ocorrerá mudanças no formato - mas mantenha o alarme ligado!
Tão hábil na criação do novo, mas quando falam de cyberliteratura... retrocesso.

E o leitor, o que pensa?
Ora, o leitor é ser humano.

Invoco Charles Dodgson para responder esse problema de lógica:

- Ser humano gosta do poder.
- Escritor gosta do poder.
- Leitor é ser humano.

Será que... leitor = escritor?!

Se sim, de quem é a criação? Quem tem a força, He-man?

Não tenho plena certeza, mas acho que o leitor aprendeu a gostar de interagir com o Big Brother (o da Globo mesmo. Quem dera fosse o de George Orwell...). Gostou de jogar. Talvez queira interagir de forma mais lúdica com a obra literária, não sei... Acontece que essa indefinição nos papéis está causando um rebuliço no mundo literário. E, onde há muita liberdade, há quem se sinta desprestigiado, ou seria desapoderado? Eu diria mais: amedrontado.

Em tempo:

- Charles Dodgson era matemático.
- Charles Dodgson adorava lecionar Lógica.
- Lewis Carrol escreveu Alice no País das Maravilhas.
- Lewis Carrol adorava Fotografia.
- Charles Dodgson é Lewis Carrol.

Será que... matemático = professor = escritor = fotógrafo?

Afeito às novidades, eu quero é mais. Até brincar com meus sofismas... Ou seriam silogismos disfarçados?

P.S: Sou escritor, ser humano, e gosto de poder... poder ser livre.

12 comentários:

Pólen Radioativo disse...

É a quinta vez que leio esse post. Desde a primeira tenho me questionado sobre a apropriação da obra literária ( não a questão do suporte material:livro, papel, e-books ou sei lá mais o quê). Acho que esse sentimento de posse e egos inflamados de autores, e todo o jogo do mercado editorial, não atenta para verdadairo sentido da obra.Depois de escrita, não pertence a mais ninguem e a todo mundo. A "propriedade" é de quem lê ( até mesmo do próprio autor quando a relê) que reelabora seus significados mediante suas inquietações do momento. Talvez eu esteja fugindo da temática da postagem, mas acho que um nome na capa não significa nada além de um ponto de partida ou a noção do tipo de companhia que se terá nas páginas que serão lidas.
O poder está nesta possibilidade de reelaboração infinita. Está na quebra de barreiras (sejam elas quais forem).
Quanto a tecnologia... Se for pra viabilizar a difusão da leitura,se for pra democratizar, então que venha!!!
(Livros são objetos que despertam desejos, sua posse dá prazer - eu que o diga - contudo, e por isso mesmo, acabam tornando-se caros)

Um beijo, querido!!!
Espero não ter sido tão confusa no comentário.

El Bailaor disse...

Pólen Radioativo -

Adorei seu comentário! Concordo com cada vírgula! Acrescento ainda: antes de escrita, lá no universo das idéias, acredito que a obra também é de ninguém e de todo mundo. Minhas palavras remetem ao holismo, e não me envergonho disso. Tudo o que somos é oriundo de relações com o meio (agora, além de holista, psicólogo rs). A obra é o autor e suas relações, sejam antigas ou atuais.

Livros, adoro possuí-los! :)
E com isso possuir o autor, conhece-lo profundamente. Talvez, intimamente, eu esteja querendo saber o tipo de arranjo que ele foi capaz de fazer com nossas relações (eu - sociedade - ele)! E ainda, como você bem escreveu: reelaborar infinitas vezes essa massa criativa! :)

Quanto à careza... é por causa dela que não critico os uploaders de livros, menos ainda quem os baixa. Porém, sou daqueles que dificilmente trocam a magia e o "cheirinho de novo" pela frieza da tela. E espero por dias e preços melhores no mercado editorial! rs.

Abraços, muito enriquecedor seu comentário!! :)

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

O caminho se faz ao caminhar do caminheiro... penso, é poeta quem poeta vive... muitos deles nem escrevem... ;)

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Paulo Coelho se apropriando de Jung faz idéia similar quanto à propriedade... quem escreve, eleva-se, bebe num rio de registros akhásicos e torna pra saciar a sede de quem aqui ficou e só acessa o mesmo rio no onírico...

Laura Cohen disse...

Teve uma conferência no flip desse ano que foi sobre o "fim do livro", com o robert darnton e o peter burke, e um dos dois, agora não me lembro qual, citou que o livro já passou por uma revolução: quando foi inventada a imprensa e os livros passaram a serem compostos por impressoras, em uma escala maior, e não reproduzidos à mão. O livro ficou mais acessível, assim como o conhecimento. Relembrando essa idéia tão recorrente dos direitos autorais, da reprodução, e do livro digital, há outra "revolução" acontecendo por aqui, (não sei se acho ruim ou boa, por que pessoalmente, sou bibliófila), e gostei bastante do que você escreveu por aqui. E é bom descobrir que somos co-autores de nossos livros preferidos :)

jefhcardoso disse...

Escritores possuem mania de ser Deus, fingem humildade... Medo do futuro, sim, eles têm muito.

Tenho uma frase, está em meu twitter, e creio que é propícia para este comentário:

*A Literatura no presente é uma menina que corre livre por toda parte, ela se libertou dos livros e hoje corre na rede, balança na rede, pousa para os livros como para um retrato (Jefhcardoso)


Abraço do Jefh/Leia “O Rei Dos Picaretas” no http://jefhcardoso.blogspot.com Até!

jefhcardoso disse...

Se for ao meu blog, não deixe de ler minha resposta ao seu último comentário. Eu brinquei com vc. Espero que não se ofenda. Achei ótimo a descrição da situação ocorrida com o Skylab.
Abraço!
Boa semana!
Jefhcardoso

Rafael disse...

Bom, todo leitor recria uma obra cada vez que a lê...
Mas acho que é possível que aja algo um dia que nem num poema do Michel Melamed, no qual o escritor escreve o livro "ao vivo" com os espectadores acompanhando todo o processo, auhauha
Abraço!

Silvana Nunes .'. disse...

Excelente espaço. Bravo !
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS desejam um bom dia para você.
Saudações Educacionais !

Silvana Nunes .'. disse...

Nossa, excelente espaço, adorei.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... e MEU CADERNO DE POESIAS desejam um bom dia para você.
Saudações Educacionais !

Bela disse...

Muito bom! Reflexivo como sempre! :)

Aline Aimée disse...

Antigamente, autores tinham pavor de ficarem conhecidos, sob pena de influenciarem a recepção da obra.
O conceito de autoria é romântico. Antes desses, ninguém assinava ou dava crédito por citações. As obras pairavam por e para todos.
Hoje, a persona do autor virou fetiche. Em alguns casos, é mais interessante ou polêmica que a própria obra.
E muita coisa, não tudo, fica parecendo repetição, paráfrase, whiskas sachê.
Aliás, fugindo do assunto, vivemos o auge do pastiche, como uma sociedade endogâmica de escritores.